No Natal, contra tudo e contra todos, especialmente de ideias passadistas quando ao adequado enquadramento de interiores da sala de jantar, mas contando com o informado e imprescindível apoio da minha filha Ana, regressada de Zurique para um curto período de férias, comprei uma “smart" TV, uma coisa bem supimpa, que faz a felicidade de qualquer homem na crise da meia-idade. Um calhamaço de 50 polegadas, com ligações “hi-fi”, “bluetooth”, “streaming” e o raio a quatro, tudo a operar em sistema Android. Com a tal de “smart" TV e o “smartphone”, fica-se com a sensação que se pode fazer um frango de churrasco ou uma entremeada na brasa.
Regressado do trabalho, sentei-me à frente da dita, da tal de “smart" TV para ver o jogo do Sporting contra o Marítimo para a Taça de Portugal. Apesar do aparato tecnológico e das minhas tentativas de controlo remoto, ouvia insistentemente a voz do Manuel Cajuda a comentar o jogo. Comecei a imaginar que, depois do jogo e do Manuel Cajuda, veria o “Bonanza”, a “Casa na Pradaria” ou a “Vaca Cornélia”. Ora, este era o tipo de programas e séries que via numa Grundig a preto e branco que o meu pai tinha comprado aí pelos finais dos anos sessenta, princípios dos anos setenta. Imaginam o desconsolo, o sonho de uma vida, uma “smart" TV e depois isto: uma série dos anos sessenta ou setenta a preto e branco.
Quando percebi que o Borja tinha regressado, senti um ligeiro arrepio, mas está frio, muito frio, e pensei que era do frio, não sendo necessário desempacotar o desfibrilador. O Manuel Cajuda e um outro comentador tentaram reconfortar-me, afirmando que tínhamos um banco de luxo, enumerando os jogadores e entre eles o Sporar. É o mesmo que nos falarem de Ricardo Salgado e de banco bom na mesma frase. Mais coisa menos coisa, falhanço aqui, falta ali, perdas de tempo acolá, o jogo ia (não) correndo: uma bagatela de 26 faltas só na primeira parte. O melhor momento foi mesmo quando o árbitro foi saber como se encontrava um jogador do Marítimo que estava a ser assistido fora do campo. Apreciei a diligência e a atenção. Não me voltam a apanhar no SNS24. Quando me sentir mal, ligo ao Manuel Oliveira.
A segunda parte foi mais do mesmo. Muitas faltas. Amarelos nem vê-los. Perdas de tempo com jogadores do Marítimo estropiados e desmaiados pelo chão. Estava-se nisto quando o Neto fez o que tinha de ser feito e, se alguém o tinha de fazer, ele e só ele o poderia fazer. Passou para as costas do Palhinha, um jogador recupera a bola, tropeça no Feddal, tropeça na bola, passa-a para o lado direito e golo do Marítimo. Passado mais um bocado, canto para o Marítimo, desvio ao primeiro poste, aparece um jogador ao segundo poste a empurrar a bola e segundo golo. Foi um prémio muito merecido para esse jogador. Fez quatro faltas para amarelo e só viu um. Alguns dirão: o prémio foi não ter sido expulso. Não, nada disso, era pouco, muito pouco, o árbitro não queria e não o ia expulsar, fizesse o que fizesse. Não o expulsar não era prémio. Prémio, reconhecimento é deixá-lo marcar um golo para assim o homenagear.
A coisa está feita e não se fala mais nisso: perdemos e fomos eliminados da Taça de Portugal. Esta história é repetida. Foi assim que fizemos contra o Lask Linz e temos sido beneficiados por não jogar a Liga Europa, como muitos afirmam. Agora, sempre poderão afirmar também que iremos ser beneficiados por não jogar a Taça de Portugal.
