quinta-feira, 19 de março de 2026

O mundo configura-se a nível mundial, já diziam o Alves do Santos e o Gabriel Alves

Como é que se escreve sobre o jogo de terça-feira [do Sporting] contra o FK Bodø/Glimt sem se ser piroso, lamechas? O que fazer com o [meu] habitual cinismo? Anteontem, numa reunião em que participei, alguém dizia que “o mundo se configura a nível mundial”, algo que nunca me tinha ocorrido, que não consigo explicar, um pleonasmo que não resulta da repetição de uma ideia, mas da repetição da falta dela, da repetição de uma não-ideia. Quando não se tem ideia do que aconteceu e de como aconteceu, é necessário encontrar essa não-ideia e repeti-la também ou abraçar a primeira pessoa que se encontre na rua. Como li algures, nunca se deve atirar a toalha ao chão, porque sempre aparece um apanha-bolas do Porto, clube, para a levar e não mais a devolver.

Não se consegue compreender nada do que se passou no jogo de anteontem e na eliminatória no seu conjunto sem compreensão da psicossociologia nacional, das representações sociais que nos definem culturalmente, se é que me faço entender. O “Labirinto da Saudade”, do Eduardo Lourenço, ou o “Portugal, Hoje. O Medo de Existir” ajudam, mas quem nunca ouviu os relatos do Alves dos Santos ou dos Gabriel Alves não compreende a nossa identidade [futebolística] nacional. 

Numa eliminatória, com a segunda mão jogada em casa, qualquer equipa portuguesa joga a primeira mão a pensar em empatar ou em perder por poucos, jogando, então, o primeiro jogo a pensar no segundo. A tática não é carne nem peixe, ataca-se com um olho na defesa, defende-se com um olho no ataque; e deixa-se andar, deixa-se correr o marfim à espera de que o jogo se conclua com os menores estragos possíveis. Se se é bem-sucedido, na segunda mão, em casa, começa-se por uns bons trinta minutos de “estudo mútuo”, como descreviam esses dois grandes relatadores. Depois desses trinta minutos, o jogo acelerava um bocadinho, mas logo vinha o intervalo e, a seguir, voltava-se à moleza inicial. Em desespero, depois de se sofrer um golo ou dois, entra-se em modo de desespero e mete-se a carne toda no assador [“put all the meats on the barbecue”, como disse o Carlos Carvalhal quando treinava o Swansea]. Esta é incrível e triste história das sucessivas vitórias morais das equipas portuguesas.

Esta eliminatória [do Sporting] contra o FK Bodø/Glimt foi taticamente assim congeminada. Esqueceram-se foi de avisar os noruegueses ou os noruegueses esqueceram-se de estudar o comportamento do Sporting e de outras equipas portuguesas nas competições europeias, e, quando demos por ela, estávamos a perder por três a zero, não havendo nada a fazer na primeira mão. A perder por três a zero, a tática da segunda mão não podia ser a de engonhar, a de encanar a perna à rã, pois a vitória moral [já] não estava ao nosso alcance. Restava-nos a alternativa de ganhar, ganhar mesmo; era precisa uma vitória autêntica, com golos e assim. Entrámos com a faca nos dentes e o resultado do jogo fez-me lembrar as consequências imprevistas de uma rendição que se confunde com heroísmo de um batalhão de antigos prisioneiros espanhóis, alistados à força nas tropas napoleónicas durante a Campanha da Rússia, descritas por Arturo Pérez-Reverte, em “A Sombra da Águia”.

Mas a motivação para escrever esta postada não foi a de falar deste jogo [épico]. A motivação foi a de me retratar publicamente de tudo o que disse ou pensei sobre alguns dos jogadores do Sporting e do seu treinador. Concentro no Fresneda esta necessidade de me corrigir, de me negar. Quantas e quantas vezes pensava para mim mesmo, com os meus botões [em particular com os botões em couro de um casaco de “tweed” cinzento com cotoveleiras castanhas em couro também]: “O Fresneda seria um excelente jogador se aprendesse a jogar à bola, a fazer uma finta de vez em quando, um centro que não bata no primeiro meco que se encontra à sua frente”. Pensava, mas já não penso [e muito menos o digo ou só o digo para o desdizer]. Na terça-feira aprendi que se exagera muito a necessidade de se saber jogar como se jogava tradicionalmente para se ser jogador. Se não se consegue jogar, atrapalha-se, o atrapalhador é o jogador desta nossa pós-modernidade futebolística. O Fresneda não centra mal, qualquer um dos seus centros acaba em canto ou em “penalty”, fazendo dele a contratação perfeita do Arsenal [treinado pelo Mikel Arteta], equipa que tranformou a marcação de "bolas paradas" em arte contemporânea.

segunda-feira, 9 de março de 2026

A desqualificar é que a gente se desentende

A incapacidade de compreender e de (des)qualificar adequadamente o treinador adversário é meio-caminho andando para se ver o título do campeonato por um canudo [não, nada disto envolve o Bom Jesus ou qualquer alegoria que envolva Braga]. O Mourinho considera uma parolice o guarda-redes do Porto queixar-se convenientemente de um dói-dói e pedir assistência médica sempre que o Fariolli quer dar instruções aos restantes jogadores [fazer um “time out” como ele próprio diria em italiano]. Não há parolice, há chico-espertice, coisa completamente diferente, isto é, o Fariolli é chico-esperto ao assim proceder, mas não parolo. Desqualificar o adversário é uma forma de lhe retirar uma ou mais qualidades, implicando prévio conhecimento dessa ou dessas qualidades. Não se é competente para desqualificar se não se dispõe de competências para qualificar também. No entanto, desqualificar não é insultar, nem o Mourinho seria capaz de uma coisa destas, cruzes-canhoto, abrenúncia. 

Seja como for, pensando-o parolo, o Mourinho entrou em campo com uma equipa constituída por jogadores como o Barrenechea, o Prestianni ou o Rafa. Demorou três quinze dias a compreender este logro, a compreender que não estava em presença de um parolo, mas de um chico-esperto, mas ainda a tempo de substituir estes três [tristes tigres] pelo Lukebakio, o Ivanović e o Barreiro e de empatar o jogo [dois a dois]. O Fariolli é chico-esperto e, como chico-esperto que é, considera-se mais esperto do que os outros, metendo o Moura, o Moffi e o Gomes, quando estava a ganhar por dois a zero, só para demonstrar que é mais esperto do que o Mourinho [como se tal fosse possível]. Este jogo, este clássico demonstrou a importância de um bom “scouting” e a falsa equivalência entre chico-esperto e esperto [na melhor das hipóteses, o chico-esperto é o esperto dado à indolência, à melancolia].   

Este é um blogue de sportinguistas e é do Sporting que se deve falar [“mais mal do que bem”, mas falar, sempre]. Comecemos pelo contexto: não é possível compreender o jogo [do Sporting] contra o Braga sem se compreender o seu entorno mediático e institucional. O Porto, clube, pretendia e pretende cortar relações institucionais com o Sporting. Com relações institucionais cortadas passa a ser moralmente adequado esconder bolas ou procurar que os adversários se constipem. Lá em casa, há uns tempos, a caldeira começou a revelar problemas. Contratámos um picheleiro e nada. Só quando contratámos alguém da Escola de Frankfurt é que compreendemos a verdadeira dimensão do problema, o emaranhado institucional em que nos encontrávamos. Nunca mais olhámos a caldeira, qualquer caldeira, da mesma maneira [vamos substituí-la por uma bomba de calor ou por um ar condicionado, equipamentos menos dados a melindres].

Perante uma ameaça desta natureza, um clube, uma equipa que não se sente não é filha de boa gente [e gente não é certamente e a chuva não bate assim]. Encontrando-nos a ganhar, recuámos e defendemos como se não houvesse amanhã [a expressão é um tanto exagerada quando se defende com o Fresneda ou o Inácio, convenhamos]. Foram instruções do Rui Borges? Foi cansaço, falta de pernas dos jogadores? Foram as lesões de jogadores como o Ioannidis ou o Debast? Não, nada disso, só quem esteve de relações cortadas, de candeias às avessas é que sabe o que se sofre e como se é incompreendido nesse sofrimento.  Podíamos ter ficado a ver por um canudo [o título]? Podíamos, mas não era a mesma coisa, embora continuemos a respirar por uma palhinha [não confundir uma palhinha com o Palhinha, um artigo indefinido com um artigo definido, um substantivo comum com um substantivo próprio]. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Destruição: dos anos 80 do Conjunto Típico Torreense ao Porto de Farioli

O meu amigo Pedro Azevedo disse tudo. Depois de o ler, se não estivesse profundamente entediado, tinha dado o jogo de ontem [do Sporting] contra o Porto como definitivamente encerrado. Assim como assim, aqui fica, então, mais uma postada, o meu modesto contributo para a bi-dobradinha deste Sporting do Frederico Varandas, esse terrível homem dos sete mares [nunca de antes navegados], esse Fernão Mendes Pinto dos túneis, dos quinhentinhos, do Canal Caveira ou das casas de alterne. 

Trabalho e vivo há mais de trinta anos no Norte de Portugal e é deprimente, muito deprimente ver um clube assente nos princípios e valores daquela região que constitui o berço da nacionalidade a desmoronar-se jogo a jogo, época atrás de época. Quer-se intimidar o árbitro, condicioná-lo, fazê-lo pensar duas vezes antes de apitar seja o que for? Muito bem, pede-se a Don Vito Corleone [Marlon Brando] que lhe coloque uma cabeça de cavalo [ensanguentada] na cama ou a Jules Winnfield [Samuel L. Jackson] que lhe recite Ezequiel 25:17. Não lembra a ninguém é colocar um italiano a dizer num inglês com sotaque da Amareleja que o árbitro é mau, muito má pessoa por ter gamado o Sporting com toda a gente a ver e não se ter revoltado quando toda a gente que viu lhe disse o que viu, que tinha gamado o Sporting. 

Quer-se destruir o adversário, derrotá-lo em toda a linha, subjugá-lo até à sua rendição incondicional? Muito bem, pede-se ao Nuno Rogeiro, ao José Milhazes, ao José Tomaz Castello Branco ou ao Miguel Baumgartner que expliquem o atual contexto geopolítico e geoestratégico e a importância de dispor de armamento nuclear tático [não confundir, nunca confundir com armamento nuclear estratégico, porque matar todos devagarinho, um a um, é muito diferente do que matar todos de uma só vez, de uma penada]. Não, não lembra a ninguém as queixinhas do tal fulano italiano porque a equipa adversária regressou do intervalo com cinco minutos de atraso [só faltou queixar-se do ladrar irritante do Yorkshire Terrier da mãe do Luís Suarez que não deixa ninguém dormir a noite toda].

Ninguém leva nada disto a sério. Ouve-se e apetece-nos [logo] comer uma canja, como o Rui Borges. Talvez valha a pena respirar fundo e voltar ao princípio. O Porto perdeu contra o Sporting por um a zero na primeira mão da meia-final da Taça de Portugal. Hoje, a Terra continuou o seu habitual movimento de rotação a cerca de 1.670 km/h [no Equador] e o seu não menos habitual movimento de translação a mais de 107.000 km/h. Daqui a um mês ou dois joga-se a segunda mão. Até lá, espera-se que continue o bom tempo.

terça-feira, 3 de março de 2026

Não se deve ter um campeonato quando se pode ter tantos quantos as equipas

Não se consegue acompanhar o ritmo alucinante, estonteante dos acontecimentos no futebol português. Explicando melhor, o ritmo dos jogos do futebol português aguenta-se muito bem ou não tivessem atingido patamares de excelência jogadores velozes e intensos como o Pedo Barbosa ou o Fábio Rochemback; o que não se acompanha é o ritmo das notícias, um autêntico corrupio de ninharias embrulhadas em papel cuchê que constitui um festim para qualquer comentador ou analista mais ou menos encartado. Para dar um só exemplo, o José Mourinho constitui o Pedro Passos Coelho com mais [muito mais] cabelo, não há dia em que não se procure compreender o que possa estar a pensar por franzir o sobrolho ou por dizer seja o que for [que ele diga].  

Quando um canto erradamente assinalado contra o Santa Clara no estertor do jogo permitiu a vitória do Sporting, clamou-se pela necessidade de a arbitragem perscrutar melhor, muito melhor, esmiuçando até ao tutano cada jogada, cada lance, não fosse o diabo tecê-las. No jogo [do Sporting] contra o Famalicão, o videoárbitro perscrutou e perscrutou muito bem [assinalando uma falta e, assim, anulando um golo], clamou-se, então, que não senhora, rever é uma coisa, perscrutar é outra [completamente diferente]. Ver, ver com olhos de ver, é apenas para os árbitros e, no jogo do Porto contra o Arouca, assim foi: o árbitro viu o que ninguém viu e o videoárbitro reviu e, revendo, não viu, confirmando um “penalty” no estertor deste jogo também.

Não se conseguindo um entendimento que durasse mais do que uma jornada, o Benfica apresentou uma proposta disruptiva, um verdadeiro corte epistémico. Cada clube analisa a arbitragem dos seus jogos e dos seus rivais e vai fazendo a respetiva contabilização dos benefícios e prejuízos. A partir dessa informação e com recursos ao Método dos Mínimos Quadrados Ordinários, estima a pontuação e, assim a classificação de cada clube. Mais canto, menos canto, mais “penalty”, menos “penalty”, são estas as contas do Benfica: Porto em primeiro, com 63 pontos; Benfica em segundo, com 61 pontos, mas um jogo a menos; Sporting em terceiro, com 55 pontos. 

Com a vitória de ontem contra o Gil Vicente, o Benfica passaria para primeiro, com 64 pontos, não fosse o Porto considerar um canto, um livre ou um fora-de-jogo mal marcado, pouco importa, voltando tudo ao mesmo. Não se obtém uma classificação final, mas, antes, tantas quantas os clubes que recorram a estes modelos econométricos, isto é, ninguém ganha, ninguém perde, antes pelo contrário. No limite, todos os clubes poderiam acabar o campeonato com zero pontos, dependendo da arbitragem, embora ainda não se tenha encontrado solução para a distribuição do total dos pontos, que pode variar entre os 306 [todos os jogos acabam empatados] e os 918 [todos os jogos acabam com um vencedor e um vencido].

Estes prolegómenos tinham um e um só objetivo: ganhar balanço, imaginação para escrever qualquer coisa sobre o jogo [do Sporting] contra o Estoril. Ganhámos por três a zero, é o que me ocorre dizer, depois de pensar, pensar bem na arbitragem e nos cantos, livres ou pontapés de baliza que assinalou. O Luiz Suárez marcou os dois golos iniciais, o primeiro com a sola da chuteira, o segundo meio com a canela, meio com o peito do pé, depois de receber a bola com a ponta da chuteira. Num último fôlego, o Daniel Bragança marcou o terceiro, depois de uma bela desmarcação e de uma melhor assistência do Nuno Santos, dois dos nossos habituais 358 enfermiços. Como veem, o futebol, o futebol propriamente dito, com bola e tudo, tem muito pouco interesse, muito pouco que se lhe diga, um aborrecimento, enfim.