Atualmente, não é simples apreciar um jogo de futebol, as jogadas, as fintas, os passes, os remates ou as defesas. Ou se admite que o futebol é arte e pode-se apreciar sem se compreender [o belo não deixa de ser uma sensação, mas, quanto a sensações, os jogos do Sporting só me provocam calafrios e taquicardias] ou, não sendo, se não se compreende, não se aprecia. Por outras palavras, só se aprecia o que se consegue compreender e explicar [sim, não esquecer que conhecimento e linguagem são uma e a mesma coisa]. Para se compreender [e explicar] um jogo é necessário reconstruir as cadeias de relação de causa e efeito no próprio jogo e desse jogo relativamente a outros, recorrendo ao “efeito borboleta” e à teoria do caos. Estes prolegómenos são uma forma de encher chouriços como outra qualquer, sim senhor, mas também são indispensáveis à completa compreensão [e explicação] do jogo [do Sporting] contra o Santa Clara.
O Mangas caiu espalhafatosamente, tropeçando em si mesmo, e o árbitro marcou falta do adversário que o perseguia, não o deixando prosseguir com a bola. Defesas a cair por efeito do bafo de um avançado e a marcação da correspondente falta constituem características do futebol português que o diferenciam dos demais, transformando-o em recurso endógeno como a Carne Barrosã, a Alheira de Mirandela ou o Queijo Terrincho. Existe uma representação carregada de dramatismo quando um calmeirão como o Otamdendi ou o Bednarek se estatela por força do bater de asas de uma borboleta em Tóquio. Pelo contrário, a queda do Mangas carrega em si mesma a integralidade do seu autor e a sua integridade [moral], constituindo a marcação da falta um simples gesto de reconhecimento [mas carregado de significado]. Depois deste tropeção, desta queda, há um jogador um só jogador à face da Terra que se queira aproveitar desta desventura?
O [Souleymane] Faye enfia uma biqueirada num adversário à entrada da área do Sporting, o adversário paga-lhe na mesma moeda e corta-o ao meio, o árbitro não marca nem uma nem a outra falta, em jeito de compensação, de uma mão lava a outra, metodologia de arbitragem que muito contribuiu para a singularidade do futebol português também. Nada de especial até aqui, não se fora dar o caso de a jogada prosseguir e o Santa Clara acabar a marcar um golo. Marcado o golo, o videoárbitro, este elemento de modernidade, sem respeito pelas tradições e usos e costumes nacionais, revê o lance e marca a falta do jogador do Santa Clara, a falta com que se inicia o lance de ataque, não respeitando o princípio de uma mão lava a outra, cumprindo as regras, mas cometendo uma injustiça. Não, não se considerou o princípio [ancestral] de uma mão lava a outra e, sim, o Santa Clara foi prejudicado em mais, muito mais do que na [simples] marcação de um livre direto a seu favor. Mantendo-se tudo o resto constante, a célebre condição “ceteris paribus” a que os economistas sempre recorrem, o golo seguinte do Santa Clara não seria o segundo, mas o terceiro. É verdade que o Sporting marcou o quarto e, portanto, sempre teria vencido, mas se [e só se] se admitisse que também se lhe aplica a condição “ceteris paribus”, o que não é justo, nem coerente com a análise [até aqui] desenvolvida.
Que o árbitro e o videoárbitro beneficiaram o Sporting, está demonstrado ou nem sequer necessita de demonstração, diga-se. Se o Sporting ganha é porque o Sporting é beneficiado pela arbitragem, não há, não pode haver outra explicação. Existe um pormenor, um simples pormenor que, sem ele, esta explicação não é explicável: o Frederico Varandas não pode ser o choninhas que aparenta, mas, isso sim, uma criatura da pior espécie, que influencia, corrompe, vicia. O Rui Costa e o André Villas-Boas sabem do que falam e nós, sportinguistas, também sabemos do que eles falam e é por isso [mas não só por isso] que também não suportamos o Frederico Varandas. O ódio dos benfiquistas e dos portistas ao Frederico Varandas é um desperdício de energia. Não, ninguém o odeia mais [e melhor] do que nós, estejam descansados, camaradas. Nós e só nós é que estamos em condições de fazer justiça e a justiça se fará, mais tarde ou mais cedo, não tenham dúvidas. Estava-me a esquecer: vão para os Aliados festejar tranquilamente e não nos aborreçam mais, se faz favor!
Caro Rui Monteiro o ceteris paribus, ainda que sem aspas, explica quase tudo nas nossas vidas sobretudo nos aspectos mais inexplicáveis. Como poderia o futebol escapar a essa potência interpretativa?
ResponderEliminarJá depois de ler este magnífico post calhou-me escutar as declarações do nosso treinador sobre as substituições que fez e as que não fez, com que os espíritos menos modernos resolveram questionar o nosso homem do leme após a brilhante derrota contra o Arsenal.
Admito que Rui Borges seja um estudioso profundo da economia do jogo e que acredite, como acontece também com quase todos os que têm estudos certificado em universidades de ponta com Economics no nome, que a economia é uma ciência exacta cujos resultados são inescapáveis desde que haja "rigor científico" no recurso ao "ceteris paribus". Para quê fazer mais substituições se estava tudo a correr como previsto mantendo constantes .... .
Tendo agora passado pela caixa do Pingo Doce e verificado dolorosamente que os gestores da coisa nutrem uma enorme simpatia pelas variáveis que utilizam para a fixação dos preços, deixando fora do "ceteris paribus" tudo aquilo que os pode empatar na sua obsessão altista , digamos assim, dei por mim a pensar como seria o mundo se, pelo menos durante uma semana - até depois do jogo em Londres se puder ser - o gestor do Pingo Doce fosse treinador do Sporting, o Rui Borges fosse ministro das Finanças e o ministro fosse gerir o Pingo Doce.
JG
Meu caro,
EliminarVamos por partes e começando pelo fim. Estou o mais de acordo possível com a ida do Ministro das Finanças para Gestor do Pingo Doce (se levasse o Trump também não era mal pensado, pois não há nada como ver para crer). O Rui Borges seria um excelente Ministro das Finanças se o objetivo era que tudo ficasse constante, mas não sei se será possível. O Gestor do Pingo Doce como treinador saberia pelo menos que não pode ficar tudo constante, até porque estamos a perder.
Com o banco na máxima força e o Hjulmand, penso que o resultado poderia ter sido outro, bem melhor. Na parte final, faltou gente para acelerar o jogo e romper, como o Quenda, o Luís Guilherme ou, até, o Ioannidis (de boa memória). Se reunirmos essas condições, o Arsenal ainda pode passar um mau bocado.
SL
RM