quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Os que jogam e sabem jogar e os que não sabem dar um pontapé na bola

Fui jogar à capital europeia da burocracia. Há seleções nacionais, há jogadores, há dinheiro, muito dinheiro que faz de bola ao mesmo tempo, há regras mas não há árbitro. Também se passa uma época toda a preparar esta final, que não é bem uma final, porque a esta se sucede sempre outra e mais outra. Há táticas, há técnica, há modelo de jogo, há quem comente sem nunca ter dado um pontapé na bola mesmo quando ela lhe é passada. No fim, também se ganha ou perde, mas o resultado ideal é o empate para que todos possam reclamar pelo menos uma parte da vitória. Assim, estive com o equipamento da seleção nacional vestido, mas sem direito a festejar golos e a correr para o público a beijar a camisola. Uma maçada, portanto. 

Neste jogo, aplica-se o princípio de que é sempre preferível um acordo a uma boa demanda. A razão só interessa na exata medida que nos permite chegar a um empate ou à vitória que queríamos deixando para os outros a vitória que desejavam também. Tudo isto serve para falar do possível acordo entre Sporting e o Wolverhampton para a transferência do Rui Patrício. 

O Wolverhampton dispõe do Rui Patrício, um dos melhores guarda-redes do Mundo, e parte à frente: ainda sem o jogo se ter iniciado, tinha a parte da vitória que desejava. Estando o Rui Patrício do lado de lá, o Sporting entra a perder, a não ser que não queira chegar a acordo para vir com umas bravatas, na perspetiva conhecida do “com papas e bolos se enganam os tolos”. Se o Sporting aceitar um acordo envolvendo um montante de transferência inferior ao que lhe foi proposto no passado perde. Aceitando um acordo por mais dinheiro, ganha sempre. Pelo caminho, liquida contas com o Rui Patrício, que nestas coisas há sempre uns rabos-de-palha que encravam os acordos. O Jorge Mendes não é para aqui chamado. O que se lhe deve, se é que se lhe deve, diz respeito a outro negócio e não a este. As dívidas pagam-se ou também se chega a acordo para se pagar na parte ou no todo, mas esse é outro jogo. 

O Sporting está em condições para chegar a um bom acordo. Melhor estaria se o Rui Patrício não estivesse a jogar no Wolverhampton e se não se acentuassem as suspeitas de envolvimento da direção do Sporting na invasão de Alcochete. Quem negoceia não determina estas circunstâncias. Mesmo assim, estou convencido que vai chegar a um bom acordo, isto é, um bom acordo para as três partes: Rui Patrício, Wolverhampton e Sporting. Haverá sempre os que vão achar que é uma capitulação, mas esses são os que comentam o jogo sem nunca terem dado um pontapé numa bola, bastando vê-los quando se metem nestas andanças e se lhes passa a bola.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Déjà vu?

Factos:
À sétima jornada estamos no 5º lugar com treze pontos. Temos o 7º melhor ataque e a oitava (por extenso tem outra pinta) melhor defesa.  Sussurram-me que não sofríamos quatro golos para a liga há cerca de dez anos e picos. Estamos tristes, diz ele. É um passo atrás, mas nada nos pode perturbar, diz ele. Ele… é o treinador. Se calhar o problema é ninguém o perturbar. A ele e aos jogadores. Deixem os bocejos para nós, tristes adeptos.

Suposições:
Estes tipos não treinam, ou se treinam tentam disfarçar ao máximo para confundir os adversários. Bom, às vezes lá treinam, mas fora do país. Como na passada semana, na Ucrânia. Aliás, no final desse treino disputado ao ritmo de uma marcha fúnebre, uma verdadeira conspiração cósmica intercedeu, colocando uma mão por debaixo do treinador. Sucede o mesmo com o menino e o borracho. Até quando?

Questões (zangadas):
Se estes tipos não treinam, o que fazem durante aquele tempo todo em que estão na academia? Se o treinador é um especialista em futebol, porque será que nós não temos inveja disso? Se os jogadores bocejam antes de um jogo, isso será ausência de noites bem dormidas? A falta de intensidade demonstrada é um resquício (ainda) de traumas psicológicos? Mesmo daqueles que não estavam na Academia no dia X? A falta de jeito (súbita em alguns casos) de alguns jogadores é para acompanhar a qualidade do treinador? A nossa paciência será um poço sem fundo? Entre outras…

Nota:
Já agora, como se sentiu o presidente sentado no camarote do estádio do Portimonense? O mesmo clube em que o presidente da SAD recentemente agrediu à cabeçada Rafael Barbosa, jogador emprestado pelo Sporting, entretanto recambiado (para os nossos sub 23).


(originalmente publicado aqui)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Entregar a equipa a quem sabe

Tive que trabalhar no fim-de-semana. Acabei o que tinha de fazer exatamente no momento em que se iniciava o jogo. O estado espírito não podia ser melhor: a consciência do dever cumprido e a perspetiva de ultrapassarmos o Porto e nos aproximarmos do Braga. 

Entrámos como de costume, em modo assim-assim. O facto de estarmos a jogar contra o último não comoveu o Peseiro e mantivemos o duplo pivô porque é sempre preciso cautelas e caldos de galinha. Quando recuperamos a bola, o Gudelj fica mais atrás par sair com ela, optando invariavelmente por a passar para o lado ou para trás não arriscando a avançar com ela ou a fazer um passe que não seja óbvio (meu rico William Carvalho “que te partiste tão cedo desta vida descontente”). O Battaglia avança mais um pouco para atrapalhar a equipa quando perder a bola ou, apertado, não conseguir fazer o passe em condições. Quando perdemos a bola, ficam os dois a olhar um para o outro no meio, deixando os laterais entregues à sua sorte ou à boa vontade dos centrais para ajudarem a fechar do lado de fora. Aquilo que o Battaglia fazia sozinho não o conseguem fazer o Battaglia e o Gudelj juntos. O duplo pivô do Peseiro não é uma tática, é uma superstição! 

Com este meio-campo feito de papel (não me lembro de um corte ou sequer de uma falta do Battaglia e o Gudelj), os dos Portimonense sentiram-se à vontade para trocar a bola sem correrem riscos de maior. Pouco a pouco, foram ganhando gosto e começaram a criar lances de perigo nas alas, dado que, sozinhos contra o mundo, nem o Ristovski nem o Acuna tinham unhas para aquela guitarra. O único que conseguia jogar contra mundo era o Coates. Invariavelmente, ou o lance acabava nele ou acabava em golo, como se viu. No primeiro, o Jovane Cabral perdeu a bola à entrada da área adversário e, como o Ristovski tinha avançado, de repente abriu-se uma ciclovia de trinta metros para um ciclista do Portimonense correr sem qualquer adversário por perto. O Coates, quem mais, ainda o tentou puxar para a linha de fundo e obrigar a parar, mas o dito ciclista depois de parar puxou a bola para dentro e rematou à vontade com o Gudelj não só a não fechar como a aparecer tarde e a más horas e a virar a cara à bola. Os do Portimonense perceberam que se a coisa tinha corrido tão bem não havia razões para não repetirem. Numa outra jogada, ganharam vantagem do lado esquerdo do ataque outra vez, o Ristovski ficou como o tolo no meio da ponte, o Coates teve de vir à dobra, a bola passou na mesma e o mesmo ciclista foi à linha, parou, rodou e, com todo o tempo do mundo, atrasou para o remate do terrível Nakajima, aparecendo novamente a passo de tartaruga o Gudelj tarde e a más horas e a virar a cara novamente no momento do remate. 

Um azar nunca vem só. Levámos o golo e o Salin rachou a cabeça e teve de ser substituído. Como o Raphinha estava lesionado, no início da segunda parte teve de se queimar a segunda substituição. Quando os jogadores estão com a cabeça partida ou com o esternocleidomastóideo ou outro músculo qualquer a abanar, é necessário substituí-los. Mas substituí-los não é bem tirar uns e meter outros como se a simples reposição da quantidade fosse a única obrigação do treinador. Para espanto, o Peseiro pôs o Bruno Fernandes do lado esquerdo com a única obrigação de enfiar umas biqueiradas para dentro da área, ficando o Nani mais solto a jogar no meio. Se as coisas estavam mal pior ficaram. Escondeu-se o único jogador que sabe construir no meio e gerar desequilíbrios e o buraco no meio passou a atingir a dimensão de uma cratera quando se perdia a bola. 

Mesmo escondido, o Bruno Fernandes fez das suas, primeiro ia marcando um golo de bandeira, depois assistiu para o Jovane Cabral de baliza aberta até que, por fim, centrou para um corte defeituoso de um defesa, acabando a bola no Nani que a passou para o Montero a empurrar para a baliza. Os dos Portimonense tremeram e o Gudelj esteve perto de empatar o jogo. Quando se esperava que o Peseiro tirasse o Gudelj para meter um avançado, deixando o meio campo todo entregue ao Battaglia como ele gosta e encostando os adversários às cordas, assistimos ao filme habitual, desta vez protagonizado pelo Folha (sim, pelo Folha!). O treinador adversário procurou reagir à situação e mexeu na equipa. O Peseiro, mais uma vez, ficou na expetativa, deixando a iniciativa ao treinador adversário. 

Mesmo com o Jackson Martínez à beira de um ataque cardíaco, o Portimonense reorganizou-se e, na sequência de um canto (que resultou de uma perda de bola do Nani à entrada da área adversária e de uma correria dos adversários pelo nosso meio-campo sem ninguém lhes sair ao caminho), a bola sobrou para a entrada da área onde apareceu o terrível Nakajima a rematar para o terceiro (ninguém, ninguém estava à entrada da área para a proteção). Só depois de estar tudo perdido é que o Peseiro se lembrou de fazer alguma coisa e alguma coisa foi tirar o Jovane Cabral e meter o Diaby, adiantar o Coates e passar ao chuveirinho. O Coates ainda reduziu, mas o ridículo ainda tinha mais ridículo para dar. Num chuveirinho que o Coates não ganhou, o terrível Nakajima recuperou a bola e lançou um colega que correu todo o meio-campo isolado até marcar o quarto golo, quando estavam três defesas do Sporting completamente desconcentrados e sem nenhum se lembrar de marcar o único jogador do Portimonense que por ali andava. 

Podia recordar o passado e concluir com o “é preciso dar tempo ao tempo”. Podia até concluir que não perdermos pontos para o Porto e só perdemos um ponto para o Braga e nada está perdido. Mas nós sabemos o que sabemos e não vale a pena ignorá-lo: o Peseiro é o Peseiro e será sempre o Peseiro. A continuar assim, na melhor das hipóteses, vamos disputar o quarto, quinto  e sexto lugares com o Rio Ave e o Guimarães. Se precisamos de, desde já, preparar a próxima época, é melhor entregar a equipa a quem sabe e quem sabe não é seguramente o Peseiro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Peseiro sem pé-frio: uma teoria

O dia correu-me mal. Dormi pouco e mal. Acordei cansado. Fui cansado para o trabalho e com enorme dor de cabeça. Precisava de concluir um relatório importante que tinha de enviar até ao final desta semana, sem ninguém se ter lembrado que sexta-feira era feriado quando estabeleceu o prazo. A manhã correu depressa sem ter feito o que pensava. A tarde correu melhor, mas sem conseguir concluir o relatório. Às seis e cinco da tarde, veio-me à cabeça o jogo do Sporting contra o Vorskla Poltava e apeteceu-me definitivamente procrastinar. 

A balda tem regras. Se se disse que enviava o relatório era necessário convencer o destinatário que efetivamente não precisava dele. Telefona-se-lhe e levanta-se uma série de questões que para ficar em palpos de aranha. Estava pouco inspirado e o destinatário deu mais luta do que pensava. Só cedeu ao fim de cinquenta minutos com uma rajada de argumentos imbatível que o impediam de sair para o fim-de-semana antes da meia-noite, acabando por desistir. Ficou tudo adiado para a segunda-feira de manhã mas a primeira parte tinha ido à vida, embora ainda houvesse a segunda. Desci as escadas para comunicar ao chefe o combinado e descansá-lo. Estava à secretária a olhar para um berbicacho que tinha para (não) resolver. Como sou um género de diretor clínico de uma unidade de cuidados intensivos, os berbicachos são minha especialidade e, assim, uma conversa de dois minutos acabou por durar mais de meia hora. 

Subi as escadas enquanto consultava o “smartphone”. Estávamos a perder por um a zero. Quase desanimei. Sentei-me ao computador e procurei aceder à SIC. Levei com dois anúncios seguidos antes de conseguir vislumbrar a cor da relva. Ainda nem tinha percebido muito bem como é que associava os equipamentos às equipas quando o Jéfferson enfiou uma bica na bola para dentro da área que o Montero matou no peito, simulou o remate com o pé direito, tirou um adversário da frente e rematou-a com o pé esquerdo ao canto inferior da baliza, fazendo o golo do empate os noventa minutos. Os jogadores do Vorskla Poltava não se quiseram dar por satisfeitos e, na sequência de um livre, meteram-se todos dentro ou nas imediações da área do Sporting. A bica foi para o barulho, cabeçada para um lado, cabeçada para o outro, pontapé para o ar de um lado, pontapé para o ar do outro, sem ninguém se decidir quem levava o bacalhau. No meio daquela caos, a bola, farta deste tratos de polé, dirigiu-se por sua iniciativa a um jogador do Sporting, que a encaminhou com precisão para a corrida do Raphinha, que fintou para dentro um adversário e de imediato a meteu no Bruno Fernandes que, isolado, se atrapalhou com o guarda-redes, permitindo, no ressalto, o remate do Jovane Cabral para o dois a um. 

O jogo acabou. Invadiu-me uma sensação estranha e não era a de aleegria. Especialmente nas competições europeias, vi por várias vezes o Sporting deixar-se empatar ou perder nos últimos minutos. Não me lembrava de uma coisa daquelas. O meu amigo Júlio Pereira ligou e ouvi do outro lado o habitual “Então?!” depois dos jogos do Sporting. Respondi-lhe que só tinha tido tempo para ver os últimos cinco minutos e os dois golos e que não tinha percebido nada do que se tinha passado. Disse-me que com ele tinha acontecido o contrário: deixou de ver o jogo quando estava prestes a acabar e nos encontrávamos a perder e ao entrar no carro, para ir buscar o filho, estávamos a ganhar por dois a um. Percebemos de imediato o que se tinha passado. Aquela vitória não resultava de qualquer súbito aquecimento do pé do Peseiro. A coincidência de ter começado a ver o jogo exatamente quando ele deixou de o ver (a ordem é arbitrária) tem a mesma probabilidade de ocorrência de um encontro à noite com o Bosão de Higgs a passear o cão pela trela. Acabámos a conversa mais descansados: não havia razões para a normalidade sportinguista não seguir a sua vida.  

Estava explicado o resultado. Tudo se deveu ou ao paranormal ou a uma combinação có(s)mica idêntica à que originou o “Big Bang”. Não se iludam: até ver, o pé do Peseiro continua frio. Não se iludam com a coreografia que ensaiou ao deixar os melhores no banco para os meter depois, parecendo que sabe mexer no jogo e fazer substituições. A vitória deve-se a mim e ao meu amigo Júlio Pereira. Deve-se a nós por puro e simples acaso, mas que se deve, deve.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

É para verem o que custa a vida!...

Na jornada anterior, contra o Chaves, um defesa do Benfica foi expulso a poucos minutos da conclusão do jogo. Apesar do jogo estar praticamente concluído, o Chaves ainda conseguiu empatar e foi um “ai Jesus” de críticas ao árbitro. O Rui Vitória até falou de respeito pelas famílias dos jogadores e da dele próprio. O Luís Filipe Vieira veio afirmar também que o Benfica tem de jogar melhor que os seus adversários para os vencer, o que se trata de uma completa novidade e sinal dos tempos (esperemos). 

Ontem, o Rúben Dias fez na Liga dos Campeões o que costuma fazer sempre e foi expulso, contrariamente ao que acontece no campeonato nacional. A jogar contra dez, os pernetas dos gregos recuperaram da desvantagem de dois golos, chegando ao empate, sendo necessário um golo do Alfa Semedo para o Benfica ganhar o jogo. Ontem e hoje não se pára de falar de vitória épica como se estivéssemos a falar da Batalha de Aljubarrota. 

Os jogadores, a equipa técnica, os dirigentes e os sócios e adeptos do Benfica têm hoje uma melhor noção do que sentem os outros quando lhes acontece o que foi analisado aqui. É para verem o que custa a vida (a dos outros, pelo menos)!...

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Amuo com amuo se paga

Nani, o capitão de equipa, saiu amuado do jogo contra o Braga por ter sido substituído pelo Jovane Cabral, tendo vociferado uns tantos impropérios (que se imaginam dirigidos ao treinador). O Peseiro ficou amuado também com esta situação e não o convocou para este jogo contra o Marítimo. Até aqui, tudo bem: amuo com amuo se paga. Na prática, a teoria é outra ou, na teoria, a prática é outra (nem eu percebo exatamente o que estou a dizer). Se não tivéssemos ganhado, o amuo do Peseiro seria pior do que o amuo do Nani. Assim, como ganhámos, o amuo do Peseiro foi melhor do que o amuo do Nani. 

Depois da derrota em Braga só a vitória contra o Marítimo se admitia. Se não ganhássemos, não havia amuos que nos valessem. Não tenho dúvidas sobre o discurso do Peseiro no balneário: “Este jogo é para ganhar. Para isso reservei-vos uma agradável surpresa, vai jogar o Petrovic!”. Os gritos de contentamento devem ter sido mais do que muitos. Terão sido de tal forma que o Peseiro pediu calma para anunciar mais outra novidade. “Não me fico por aqui. É para ganhar e para ganhar é preciso não empatar ou, pior ainda, perder. Quando nos virmos a ganhar, entra o Misic!”. Deve ter sido o júbilo, os jogadores terão ficado ao rubro. 

Nos primeiros trinta minutos, a equipa demonstrou que tinha interiorizado esta convicção e com sentido de urgência (admito que estavam desejosos de ver jogar o Misic tanto como nós). A equipa estava empolgada e mais empolgada ficou quando o Petrovic fez uma roleta, passando entre vários adversários até encontrar uma brecha para atrasar a bola. Ficaram empolgados os colegas de equipa e mais ficaram os espectadores que desataram a aplaudir este Zidane dos Balcãs, para seu próprio espanto (digo eu). 

O empolgamento resultante desta jogada teve efeitos retroativos e deu origem a um golo logo aos dez minutos. O Jovane Cabral ganhou uma bola a meio do meio-campo e fez um passe em profundidade entre o central e o defesa do lado esquerdo para a desmarcação do Raphinha que, isolado, fintou o guarda-redes e foi derrubado por ele. Um senhor de bigode que estava há minha frente no café gritou logo: “Nem lhe tocou!”. O árbitro não ouviu o senhor de bigode e marcou o correspondente “penalty”. O Bruno Fernandes repetiu a paradinha do costume e deixou como de costume também o guarda-redes de cócoras inclinado para um lado e a ver a bola entrar pelo outro. O Bruno Fernandes está a fazer uma época abaixo de miserável e por isso ainda não conseguiu mais do que a bagatela de quatro golos marcados em seis jogos. 

O Marítimo não acusou o golpe e continuou como se nada fosse. Nós também não ou também assim-assim e, em particular, o Jovane Cabral continuou a jogar sozinho contra o resto do mundo. Numa dessas jogadas, fintou todos os adversários que lhe apareceram pela frente procurando ganhar ângulo para o remate. Não conseguiu encontrar a melhor situação para esse remate e foi andando até se encontrar perdido junto à linha lateral do lado direito e sem saber bem o que fazer à bola. Um jogador do Marítimo fez o favor de o abalroar. Na marcação do livre, o Raphinha meteu a bola tensa na área que, depois de uma carambola nuns tantos jogadores do Marítimo, acabou na bota direita do Montero e, a seguir, dentro da baliza. O senhor de bigode voltou a gritar: “Foi mão do Coates!”. Um outro senhor de bigode, que estava ao seu lado, procurou explicar-lhe que os jogadores equipados de vermelho eram os do Marítimo, demonstrando uma tese que que tenho vindo a aprofundar há tempos: a existência de qualquer excrescência capilar situada sobre o lábio superior não perturba por si só a visão a não ser que se trate de um adepto do Benfica. 

Sofrido o segundo golo, os jogadores do Marítimo procuraram sacudir a modorra que se tinha apoderado do hipotálamo e das pernas. Avançaram mais, trocaram mais a bola no nosso meio-campo e chegaram mesmo a criar uma oportunidade de golo, que não foi concretizada porque o Acuna resolveu armar-se em desmancha-prazeres. Na segunda parte, estranhamente, dedicaram-se a fazer jogo passivo sem que o árbitros nada assinalasse. Os jogadores do Sporting recuaram até próximo da sua área e foi um fartar de passes para o lado, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, umas vezes mais para a frente, outras mais para trás, sem nenhuma intenção de rematar à baliza do Salin. Quando um jogador do Marítimo franziu o sobrolho, ameaçando quebrar o armistício negociado ao intervalo, o Peseiro não esperou nem mais um segundo e substituiu o Jovane Cabral pelo Misic, cumprindo o prometido. 

Com a entrada do Misic, nenhum jogador do Marítimo se atreveu mais a franzir o sobrolho, tendo continuado o jogo passivo até ao fim (o árbitro foi misericordioso com quem estava a ver o jogo e só deu dois minutos de descontos). Os espectadores é que não estavam para aquilo e desataram a assobiar. Com o Jorge Jesus, baldávamo-nos durante uma hora e procurávamos ganhar na última meia hora de jogo com o Coates no ataque. Com o Peseiro, procuramos ganhar na primeira meia hora, baldando-nos na restante hora de jogo. Conclui-se, assim, que os adeptos do Sporting não se importam de chegar atrasados aos jogos, mas não estão dispostos a sair mais cedo. Compreendo-os muito bem. Sem querer parecer sexista, quando chego a casa mais cedo do que o previsto, também acabo pelo menos por ter de ir despejar o lixo e meter a louça na máquina de lavar.

domingo, 30 de setembro de 2018

Teorias

Ao contrário de Jorge Jesus, tenho várias ideias, outras tantas teorias e, por vezes, até alguns pensamentos que redundam em nadas. Um desses pensamentos que se desdobram em teorias é sobre o Nani. Bom, o Nani é como os eucaliptos (vamos exagerar): seca tudo à sua volta (ou quase). Ele não faz por mal, é um grande jogador, símbolo do nosso clube, importante na conjuntura actual (que não é fácil), mas não é um líder. Isso percebemos com a naturalidade da nossa insignificância. Nem sequer me refiro à sua saída, em braços imaginários, em Braga. O homem não gostou (lembram-se de Rochemback?) e o Peseiro lá teve que fazer aquilo que era o bom senso em termos de balneário: não o convocar para o jogo com o Marítimo. Com esforço, imaginamos.

Parte disto (lá estão as minhas teorias) explica a primeira parte de ontem com o Marítimo. O Fernandes soltou-se, deixou de pensar na vida, de ter um símbolo ali por perto, e começou a pautar o jogo nem que seja pela sua presença. O Peseiro é que tem que ver isso (eles podem jogar os dois, claramente), descobrindo a complementaridade entre ambos que beneficie a equipa, mas de forma a que coisa carbure. O Nani chama a si todas (ou quase) atenções; parte significativa das bolas, e até alguns adversários para receberem um autografo ou lhe darem uma pranchada. Temos que utilizar isso para a equipa, deixando o Fernandes na sua rotação assassina (desculpem, são influências da TV). O Marítimo tem bons jogadores mas só nos vai ganhar se um for jogo muito importante para nós e, sobretudo, para o Benfica. De resto, deixam jogar.

Foi o que se viu, uma primeira parte santa, podíamos ter marcado mais. Até o Montero fez o gosto ao pé de nós todos. Na segunda entramos em modo farsolas: quinze minutos e nada mais. O Marítimo à socapa contactou o nosso rival. Eles estavam chateados, nada de mais, a procissão ainda vai no adro. O resto foi peanuts, como diria JJ. Deu para o Peseiro inventar o Misic (ah, e ainda lá andava o Petrovic- que grande vitória a nossa), e fazer uma substituição aos noventa e três: entrou o Mané para os pôr em sentido. Todos nós ficamos. Claro.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Entreacto


Jorge Jesus, em mais uma conferência de imprensa imperdível, afirmou, agastado com o (suposto) anti-jogo adversário, que na Europa em noventa minutos, jogam-se cinquenta, mas que na Árábia Saudida se jogam apenas trinta minutos de tempo jogado, como se cinquenta fosse muito. Não é nada que não soubéssemos já. Mas temos que reflectir acerca da generalização europeia. Serão cinquenta minutos uma média europeia? Pois se assim for, não poderemos comparar Portugal a Inglaterra, e estaremos mais próximos (esperemos que apenas nisso, tendo em conta a sociedade progressista saudita) da Arábia saudita. Proponho deste já, apenas para dar o mote, a descida dos bilhetes para metade, toda a gente sabe que os clubes não vivem da bilhética (os estádios vazios são disso prova), matando-se assim vários coelhos com uma cajadada: o nosso tédio, mais gente nos estádios e menos gastos na carteira do entediado. Os trinta euros para os adeptos sportinguistas no jogo com o Braga são bem demonstrativos do que é realmente o anti-jogo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Se há bons e maus, nós somos dos bons

Há dias ouvi o Pedro Adão e Silva a falar sobre o Benfica e os diferentes processos em investigação pelo Ministério Público e, em particular, sobre aqueles em que existem arguidos constituídos e a acusação deduzida. Para ele, existem dois Benficas, à semelhança do BES. Há um Benfica moderno com uma estratégia desportiva e empresarial de sucesso. Esse Benfica vive paredes-meias com outro que vem do Norte, esse local geográfico de onde vêm todos os males que periodicamente assolam Lisboa, e dos tempos do Calor da Noite e do Canal Caveira. 

Para ele, as vitórias devem-se ao Benfica moderno (e lisboeta, digo eu), constituindo o outro Benfica (o do Norte, digo eu) um anacronismo porque os tempos também são outros. Concluiu que se enganam os benfiquistas que acreditam que a aposta nesse passado longínquo, em tempo e espaço, os levou ou os pode levar a qualquer lado. 

Compreende-se o argumento. Durante o Estado Novo, esse argumento era muito comum nas conversas em voz baixa nalguns locais: o regime não era intrinsecamente mau, o Presidente do Conselho era de uma probidade a toda a prova, o problema residia numas certas pessoas que gravitavam à sua volta e abusavam da confiança. É o “não há rapazes maus” do Padre Américo, podem é andar mal acompanhados (digo eu que não tenho certeza se o Padre Américo o disse mas que o pensou, pensou). 

Não tenho elementos para desmentir esta visão dual do Benfica do Pedro Adão e Silva e da supremacia do lado moderno na produção de resultados. O que conheço e procurei demonstrar estatisticamente aqui há alguns anos é a implausibilidade dos resultados se se procurar explicá-los pelo lado moderno. É mais fácil explicá-los pelo lado anacrónico, mas não tenho a pretensão de dispor da sabedoria do Pedro Adão e Silva em todos os domínios da vida pública.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O “quatro em linha” de Peseiro

Este jogo era um teste importante para o Sporting de Peseiro. Não tenho dúvidas que seria assim que o Freitas Lobo iniciaria este texto se estivesse no meu lugar. Continuando assim a pensar pela cabeça dele, depois de um ror de vitórias e de um empate na Luz, deixámos de ser o patinho feito e passaram a levar-nos a sério. Um bom resultado seria um indicador importante sobre a necessária resiliência da equipa para se assumir como candidata ao título ou se, na melhor das hipóteses, não lhe restaria outra alternativa que não fosse a de se assumir como “outsider”. A partir do resultado, a cabeça dele produziria um emaranhado de congeminações técnico-táticas-psicológicas-anímicas que levaria a uma conclusão lapidar: se sim, sim, se não, não, mas talvez, talvez. Infelizmente não sou o Freitas Lobo e tenho de trabalhar a fazer qualquer coisa que se veja sem poder viver do bitaite. 

Sendo ele um especialista e eu um amador, volto à sua apreciação. Acho que ele também diria que as equipas se encaixaram taticamente. Cada uma das equipas condicionou a saída da bola da outra, passando-se a jogar à biqueirada para a frente. O jogo transformou-se num “solteiros contra casados”, ganhando um bacalhau (do miúdo, naturalmente) e um garrafão de vinho tinto (morangueiro, evidentemente) quem chutasse com mais força. Podia não ter sido assim, mas para que assim fosse, o Artur Soares Dias anulou-nos uma jogada de ataque prometedora, como agora se diz, por fora-de-jogo inexistente. Sem o VAR, as regras são para beneficiar o ataque. Com o VAR, ainda mais, devendo-se deixar decorrer a jogada até ao fim para se averiguar se houve ou não qualquer infração. As regras nunca se nos aplicam, é um azar que temos a juntar a tantos outros como o de termos o Peseiro a treinador. Voltando ao mesmo, o jogo teve momentos que nos fez lembrar algumas das partidas mais memoráveis de Vidal Pinheiro e do Salgueiros. 

Na segunda parte, o Sporting pareceu apostado no contragolpe. A tática é baseada no conhecido “deixa-os poisar” misturado com o não menos conhecido “apanhá-los com as calças na mão”. A ideia (de jogo, como diz o Jorge Jesus) não parecia má. Quando um jogo está para o chocho, é provável que ganhe quem tem jogadores mais virtuosos no ataque e nós tínhamos os três mosqueteiros e o D'Artagnan: Raphinha, Montero, Bruno Fernandes e Nani (a ordem é arbitrária). A tática esteve para dar resultado, mas o Bruno Fernandes rematou ao lado. Quando, por azar, essa tática não resulta acaba por perder quem tem o pé mais frio e nisso, com o Peseiro, somos imbatíveis.

O Braga andava num afã tonto a fingir que atacava quando ganhámos a bola e procurámos partir em desfilada para o contra-ataque. A bola chega ao Montero que procura fazer não sei o quê e acaba por a passar atrasada para a corrida do Ristovski – primeiro azar do Peseiro. O Braga recupera a bola e uma mosca morta que por ali andava (nas palavras sábias do Freitas Lobo, o homem andava por ali devido a um pensamento tático revolucionário do Abel) avança para a área pelo lado esquerdo do ataque. Hesita tanto e demora tanto, mas tanto, que permite ao Montero recuperar e fechar o lado de dentro, ficando o Coates com a cobertura do lado de fora, o que em condições normais permitiria matar o lance de ataque. A mosca morta conseguiu centrar sem saber bem como e a bola passou por debaixo do pé do Coates – segundo azar do Peseiro. Um avançado do Braga antecipa-se à defesa e remata meio enrolado para a baliza, só que estava um outro jogador do Braga a fazer de homem-estátua à frente do Salin, impedindo-o de ver a bola e de a defender – terceiro azar do Peseiro. Para cúmulo, o Ristovski tinha recuperado a sua posição defensiva, colocando em jogo, desta forma, o homem-estátua – quarto azar do Peseiro. O golo resultou assim de um “quatro em linha” do Peseiro. 

Depois, bem, depois o Peseiro fez o que pôde. Tirou o Nani e meteu o Jovane Cabral, ficando com dois extremos rápidos e com dezenas de metros de “sprint” nas pernas. Tirou o Montero e meteu o Castaignos como avançado mais fixo para o assalto final. Quem não tem cão, caça como um gato; o que não caça é com uma torre eólica “offshore” holandesa. Recomenda-se que para a próxima se meta um central e se adiante o Coates. Ainda demorou uma dezena de minutos para se decidir a partir o jogo, tirando o Gudelj e metendo o Diaby.

A equipa tentou e ia conseguindo. O Raphinha junto à meia-lua rematou a rasar o poste. Um pouco mais tarde, na sequência de um canto e de uma troca de bola com o Bruno Fernandes, enfiou um tiro que parecia ir direitinho ao ângulo mas ou porque a bola tocou ao de leve num jogador do Braga ou porque ganhou vida própria saiu milimetricamente ao lado. O Jovane Cabral ganhou uma bola a dois jogadores do Braga e foi desembestado para a área passando à vez por cada um dos três mecos que lhe apareceram pela frente até rematar mas sem conseguir desviar a bola suficientemente do guarda-redes que fez uma boa defesa. Ganhámos a primeira bola nuns tantos chuveirinhos mas não foi ter com nenhum dos nossos jogadores permitindo os alívios do Braga. 

Perdemos. Se fosse o Freitas Lobo, estaria a fazer prognósticos no fim do jogo, incensando o engenho tático do Abel e sublinhando a rematada estupidez do Peseiro. Mas ninguém me tira da cabeça que o resultado se explica pela biqueira da bota do Bruno Fernandes e pelo “quatro em linha” do Peseiro. Se fosse com outro clube, havia todas as razões para desanimar. Tratando-se do Sporting, não. Há sempre um exemplo que compara pior num passado mais ou menos recente. Quando fazemos mal, encontramos sempre outra situação que ainda fizemos pior. No ano passado, com o rei da tática, perdemos também e jogámos muito pior. Nessa altura, ficámos a oito pontos do primeiro e agora ficámos a três. É mau? É. Podia ser pior? Podia. A situação pode melhorar? Pode. O que fazer, então? Comprar uma pata de coelho ao Peseiro e pedir à SportTv para nos livrar do Freitas Lobo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O infinito infinitamente e mais além

Como sempre digo nestas alturas, as competições europeias e, especialmente, a Liga Europa não interessam nem ao Menino Jesus (sempre tive dúvidas sobre a graça desta alegoria e, com o despedimento do Jorge Jesus, ainda tenho mais dúvidas agora por nem sequer se compreender muito bem). Jogámos contra o Qarabag. Nunca tinha ouvido falar desta equipa. O nome é tão estranho que nem sequer consegui arranjar forma de meter um género de acento circunflexo às avessas por cima do guê. Visto de Portugal, imaginei que fosse de um país algures entre a Galáxia de Andrômeda e o infinito. Uma pesquisa no Google permitiu-me saber que se trata de um clube do Azerbaijão. O nome começou a não me parecer estranho até que percebi que, embora jogando em Baku, o clube se situa no enclave de Nagorno-Karabakh que vem sendo disputado pelo Azerbaijão e a Arménia. Também fiquei saber que, para a UEFA, pertence à Europa e não à Ásia. O Festival da Eurovisão e as competições europeias têm vindo a baralhar a geografia toda. 

Mas o futebol não se rege por latitudes e longitudes, como diria o Conde de Abranhos. O Qarabag não é clube de futebol qualquer. Na época anterior, disputou a fase de grupos de Liga dos Campeões. Integrando um grupo de tubarões europeus (Roma, Chelsea e Atlético de Madrid), fez dois pontos. Tendo como referência a participação na Liga dos Campões, verifica-se que somos melhor equipa em 250%. O desnível em relação ao Porto é maior: +400%. Quanto ao Benfica, a relação inverte-se e inverte-se de tal forma que chega ao infinito (diferença (%)=[(2-0)/0]x100). É uma equipa pior do que nossa, muito pior ainda do que a do Porto, mas infinitamente melhor do que a do Benfica (sem toupeiras e sem o Renato Sanches, diga-se em abono do Benfica). Se todos os cuidados são poucos contra o Benfica, ainda mais deviam ser contra o Qarabag. 

O Peseiro fez estas e outras contas e analisou o papel do Azerbaijão e, em particular, do Qarabag na geoestratégia mundial e foi consequente: retirou o Jéfferson da equipa e colocou no seu lugar o Acuna; medida que se veio a revelar adequada como se verá mais para a frente. O treinador do Qarabag não lhe ficou atrás e engendrou uma tática de autocarro que não deixava um metro quadrado de terreno livre nem no meio campo, nem, muito menos, na grande área. A defender, com uma linha defensiva de cinco jogadores, bem sincronizados nas subidas e descidas no terreno, muito junta à linha do meio campo, não deixava espaço para os jogadores do Sporting respirarem quanto mais para correrem. Quando porventura se pedia a bica para dentro da área, para se jogar em profundidade como agora se diz, preferimos a desmarcações do Montero para trás e para os lados em apoio aos médios, melhorando a nossa posse de bola e a forma como se torna mais fluída a sua circulação, mas esquecendo-nos de meter em sua substituição alguém na área adversária. 

Assim, na primeira parte, criámos um único lance de perigo depois de uma finta do lado esquerdo absolutamente estonteante do Mathieu (ainda hoje o defesa deve estar a procurar saber exatamente o que lhe aconteceu) e culminada com uma finalização de calcanhar do Montero. Noutras circunstâncias teríamos gritado: “Olé!”; e o Montero sairia em ombros com, pelos menos, uma orelha e um rabo. As circunstâncias não eram as mais adequadas e os jogadores saíram cabisbaixos para o intervalo com um empate. 

Não chegámos a perceber se se corria o risco da segunda parte reproduzir a primeira. Às páginas tantas, o Mathieu ganha a bola na defesa, sai com ela controlada, mete-a na frente no Bruno Fernandes (e não para o lado, como mandava o Jorge Jesus) que a recebe e se vira para a frente de forma ao segundo toque a colocar no Nani que a recebe também para a frente e ao segundo toque faz um passe (se fosse o Gelson Martins acabava tudo numa correria e num centro para a molhada) para o segundo poste onde apareceu o Raphinha a empurrar para o primeiro golo. Com seis toques apenas se percorreu uma distância de mais de sessenta metros, passando a bola por quatro jogadores e acabando dentro da baliza. É nestas alturas que nos lembramos do “com três letras apenas se escreve a palavra mãe, é das palavras pequenas a maior que o Mundo tem”. 

A partir desse golo o jogo descomplicou-se e passámos a criar sucessivas oportunidades. Os jogadores soltaram-se e passaram a estar exclusivamente focados no jogo e na bola, sem as dúvidas existências que o Jorge Jesus lhes suscitava como se estavam a fazer o que lhes tinham ordenado naquelas circunstâncias de tempo e lugar e de que forma o que faziam ou não faziam se enquadrava numa perspetiva ontológica. De vez em quando, havia um ou outro que resolvia isolar um adversário para rapidamente aparecer o Salin ou o Coates a safar a situação. Com a aproximação do final do jogo, qualquer sportinguista sabe que o pior está para acontecer e essa crença é reforçada quando está o Peseiro está no banco. 

Só que, num ataque pelo lado direito, um avançado procurou passar por dentro o Acuna que, de imediato, lhe ganhou a frente, fazendo-lhe uma projeção (um “ippon” mais precisamente), ficou com a bola e enfiou-lhe uma biqueirada para tão longe quanto as forças lhe permitiam. A bola foi batida com tanta força que chegou quase à bandeirola de canto do adversário, tendo um defesa acorrido para a recuperar e a proteger com o corpo para evitar a entrada do Montero. No entanto, o Montero, sem saber como, ganhou-lhe a frente e ficou com a bola. Quando se esperava que encanasse a perna à rã, aguardando pelo encosto e pela falta, resolveu fazer tudo errado e fê-lo de tal forma que deu tudo certo: com o calcanhar meteu uma cueca ao adversário, foi buscar a bola, passou-a de primeira para o Raphinha - que tinha acreditado naquela pantominice, vá-se lá saber porquê -, a receber, levantar a cabeça e colocá-la à hora certa e no sítio certo para o Jovane Cabral marcar um “penalty” em corrida. Assim se cumpriu a profecia que não se sabe se o é ou se o é porque se autorrealiza: o Jovane Cabral quando entra mexe sempre com o jogo e é decisivo. Como se costuma dizer no basquetebol americano, o Jovane Cabral está na naquela fase em que só se pede uma única coisa: “Não toquem no homem!”. 

Há muito tempo que não me divertia a ver um jogo do Sporting. Gritei quando marcámos ou quando estivemos quase a marcar. Mandei para um sítio que eu cá sei o Battaglia, o Coates e o Gudelj quando iam isolando os adversários. Insultei o Montero quando fez o que não devia para acabar a gritar que estávamos em presença de um génio que precisava de ser, mais do que reconhecido, canonizado em vida se fosse possível. No final estava feliz, pelo resultado e pela convicção que, por nós, o enclave de Nagorno-Karabakh era português. 

(O Renato Sanches marcou um golo. Pelo que percebi da leitura dos jornais, o Benfica terá empatado um a um com o Bayern de Munique. Parabéns ao Renato Sanches pelo golo marcado e parabéns ao Benfica por num só jogo ter superado o desempenho da época passada na Liga dos Campeões)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

É isto, não é?

Os danos são irreparáveis e estão à vista de todos: a SAD do Benfica é acusada pelo Ministério Público pela prática de 30 crimes no processo e-toupeira. O Benfica promove o “fair play” e os mais elevados padrões de ética desportiva. Os seus dirigentes são exemplos de probidade, não sabendo nada nem de nada. Até agora é isto que os media nos vão informando todos os dias. 

Se bem percebo o que fui lendo e ouvindo nos media até ontem, então o funcionário judicial que se encontra em prisão preventiva acusado destes e doutros crimes no mesmo processo e-toupeira agiu por iniciativa própria para prejudicar o Benfica e os seus dirigentes, infligindo os danos que se conhecem. Se bem percebo o que fui lendo e ouvindo nos media ontem a propósito da cessação do contrato com o Benfica, é possível que o Paulo Gonçalves possa estar de alguma forma envolvido com esse funcionário judicial, causando em conjunto esses danos. Se bem percebo tudo isto, o Benfica vai processar o primeiro e, possivelmente, o segundo pelos danos causados. É isto, não é?

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Os “flippers” da vizinha são melhores do que os nossos

O Peseiro não facilitou. Insistiu na mesma equipa do jogo contra o Feirense com duas alterações: uma por lesão do Nani, jogando o Jovane, e outra por opção, tirando o Ristovski, que tinha jogado dois jogos em pouco tempo pela seleção, e metendo o Bruno Gaspar. Contra todas as expetativas, manteve o habitual duplo pivô: Battaglia e Acuna. Não é bem isso, é mais um par de “flippers”. Cada um tem a responsabilidade de acertar na bola quando ela anda pelo seu lado e procura marcar pontos tabelando com os obstáculos que estão à sua frente, que neste caso se designam “jogadores adversários”. 

Contrariamente ao que acontece no jogo de “flippers”, os obstáculos mexem-se e querem eles próprios fazer de “flippers” tentando acertar na bola também e tabelar nos obstáculos, que neste caso passam a ser os jogadores do Sporting. A existência de vários jogos de “flippers” num mesmo jogo em que os “flippers” e os obstáculos se revezam à vez, torna o jogo um pouco confuso. A solução passa ou pela bica para a frente, tentando que o jogo de “flippers” se jogue no meio campo do adversário, ou pelo recuo do Bruno Fernandes para se sair a jogar. Com o Jorge Jesus, o Bruno Fernandes jogou praticamente em todas as posições. Com o Peseiro deu-se um passo em frente e espera-se que o Bruno Fernandes jogue em todas as posições ao mesmo tempo, faltando jogadores na frente porque ainda não lhe é possível, por agora (com o treino lá chegará), estar em todo o lado e ir passando a bola a si próprio até encontrar uma brecha para rematar.

Esta leitura do jogo permite compreender melhor a sagacidade do Peseiro. Aposta mais nos "flippers” adversários do que nos seus. Sempre que pode, a equipa pressiona alto e impede a saída confortável do adversário. A pressão parece um pouco atabalhoada, mas há sempre um “flipper” adversário tonto que tenta fazer o que mecanicamente não é possível, entregando-nos a bola em zona perigosa. Foi assim que nasceu o primeiro golo, com o Jovane a recuperar uma bola junto à área adversária e a passá-la de imediato ao Montero que, após a pausa do costume para processamento das coordenadas dos colegas e adversários no seu GPS, desmarcou o Raphinha que rematou para o um a zero. Para além do golo e de um cabeceamento do Coates ao lado, a primeira parte teve pouco mais. 

A segunda parte não se iniciou com melhores augúrios. Só que, em dado momento, o Jovane entrou desembestado na área a contornar os obstáculos que se lhe depararam até um deles fazer de “flipper” antes do tempo e acabar por o derrubar. O Mota que vê tudo – ainda nos lembramos dele a ver um falta de Slimani que ninguém viu e a anular-nos um golo e a impedir-nos a vitória e a manutenção da distância para o Benfica na época 2013/14 quando liderávamos o campeonato - viu o “penalty” e marcou-o. O Bruno Fernandes com a paradinha habitual fez o dois a zero. O jogo parecia arrumado, mas nos “flippers” nunca se sabe. O Acuna de olhos fechados procurou atrasar uma bola para a defesa e acabou a passá-la a um adversário, originando o dois a um. O passe surpreendeu não só a defesa como o realizador da SportTv, que só conseguiu filmar o jogador do Marítimo isolado a marcar o golo. 

Duas circunstâncias impediram que o final do jogo se transformasse no “ai Jesus” do costume. Depois de marcar um golo, o Bruno Fernandes libertou-se de angústias e entrou no seu normal que constitui a “twilight zone” para qualquer mortal. A bica para a frente promovida pelo Peseiro tem muito que se lhe diga. A do Jesus pressupunha que o Bas Dost ganhasse a primeira bola, perdendo-se sempre a segunda porque os colegas não percebiam a ideia de jogo do treinador com o “up and under kick”. O recurso ao rugby com o Peseiro é mais eficaz. Sem o Bas Dost na frente, não se espera ganhar a primeira bola, avançando a equipa em bloco para ganhar a segunda. Numa destas jogadas, o Bruno Fernandes ficou com a bola de frente para a baliza, tabelou com o Montero, fez uma revienga a um adversário e meteu-a pelo buraco da agulha para o três a um. Depois deu para tudo. Deu para se estrearem o Wendel, o Gudelj e o Diaby e para um defesa do Marítimo ter sido acusado e condenado por homicídio na forma tentada. 

Com o Jorge Jesus, o nosso futebol era um aborrecimento, mas era porque era para ser assim. Não se esperava que melhorasse. Nem nós, adeptos, o esperávamos, nem os jogadores. A esperança é a última a morrer mas estava, há muito, morta e enterrada. Jogava-se mal porque os conceitos de mau e de bom do treinador não eram idênticos aos nossos. Bom é com o treinador. Mau é com os jogadores. Como não são os treinadores a andar aos pontapés na bola, só víamos o mau sem compreendermos o bom que estava por detrás dele e na cabeça (ou na ideia de jogo) do criador. 

Com o Peseiro existe aborrecimento mas também existe esperança. Ainda acreditamos que o aborrecimento é por acaso. Falta tempo, isto é, treino e entrosamento dos jogadores, que chegaram às pinguinhas. Em cada jogo, esperamos sempre melhorias e estas têm aparecido, poucas mas suficientes para não se perder a esperança. É um “learning by doing” permanente. Com o Raphinha hoje, o Gudelj amanhã e o Sturaro um dia destes é possível voltar a ver a nossa equipa a jogar bom futebol. A ganhar já vemos. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

É giro!

Não acompanhei com atenção devida a campanha eleitoral. Não ouvi ou li sequer uma única entrevista ou um único debate. Acompanhei a campanha pelas chamadas “gordas” dos jornais. Com tão pouco conhecimento do que se passava, achei por bem não efetuar grandes análises enquanto decorria a campanha. Neste momento, penso que posso dizer alguma coisa, dado que os órgãos sociais estão eleitos e daqui nada resulta ou pode resultar.

Embora nas redes sociais se tenha continuado a alimentar as teorias da conspiração e o entrincheiramento entre “croquetes” e “brunetes”, na campanha nado disto foi tema de discussão e cada candidato contraditou os outros e defendeu os seus pontos de vista sem desqualificar os adversários e o debate público. Com exceção do Pedro Madeira Rodrigues, com os (maus) resultados que se conhecem, ninguém se lembrou de prometer o que não pode e arranjar uma catrefada de cromos (jogadores e treinadores). Esta atitude coletiva revelou sentido de responsabilidade perante a atual situação económica e financeira do Sporting.

Rapidamente a corrida ficou reduzida a três contendores com reais hipóteses de vitória: Ricciardi, Benedito e Varandas. Destes mais rapidamente ainda se passou para dois: Benedito e Varandas. O Ricciardi só tinha para oferecer os seus conhecimentos na banca de investimento e, por isso, insistiu numa campanha monotemática sobre a situação patrimonial e financeira, entregando o futebol ao José Eduardo, esse grande ex-apoiante do Bruno de Carvalho e defensor do croquete sem qualquer sentido metafórico. Ando há demasiados anos a ensinar que a situação patrimonial e financeira mais tarde ou mais cedo reflecte sempre a viabilidade do modelo de negócios de qualquer organização. No Sporting, a médio e longo prazo, não se consegue a sustentabilidade financeira sem vitórias, títulos, bom futebol e mobilização dos adeptos, não sendo separáveis os Ricciardis, para um lado, e os Josés Eduardos, para o outro.

Não gosto muito de futsal, é um género de andebol mas com menos jogadores e jogado com os pés. Mesmo assim, vi muitos jogos do Sporting e assisti a muitas vitórias e a conquistas de títulos com o Benedito a capitão. Nunca gostei de jogadores baixotes. O Benedito é baixote mas parecia de borracha, chegando a bolas impossíveis; e, sobretudo, tinha uma alma que não acabava, vivendo cada jogo como se fosse o último da sua vida e festejando todos os títulos com os adeptos como se fosse, e é, um de nós. Tudo isto, associado ao percurso académico e profissional que seguiu, bem como à equipa que constituiu, dava garantias de ser um bom presidente.

Agora parece mais conveniente dizê-lo, mas o meu candidato sempre foi o Varandas. O Varandas era o médico da equipa principal de futebol. Imagino que não ganhasse pouco, exercendo, ainda por cima, a profissão que é a dele e que ele gosta de exercer, como se verificou nas suas intervenções em campanha. Podia ter tentando passar pelos pingos da chuva sem se molhar, continuando a exercer a sua (bem remunerada) profissão. Deixou acabar a época para se demitir, cumprindo até ao último dia as suas funções, disponibilizando-se imediatamente  para ser candidato, quando o Bruno de Carvalho ainda tinha poder e todos os que se lhe opunham andavam a fazer contas de cabeça. Foi corajoso e deu esperança a quem não se revia em Bruno de Carvalho e isso não era pouco nessa altura, quando simplesmente se especulava sobre uma suposta destituição sem qualquer alternativa no horizonte.

Dito isto e acabada a história, importa pensar o futuro com o Varandas a presidente. Ontem, cheguei ao trabalho e perguntei às minhas colegas o que pensavam do Varandas a presidente do Sporting. A resposta foi unânime: “É giro!” Um pouco despeitado, procurei aprofundar a análise. “Está bem, mas o que pensam dele a presidente do Sporting”. A resposta foi novamente unânime: “É o mais giro presidente do Sporting e o presidente mais giro de todos os clubes portugueses”. Não insisti e procurei não me ver ao espelho durante o dia. Hoje, voltando a pensar no assunto, percebi melhor o que elas me disseram. Não sabemos se o Varandas vai ser um bom presidente e tão bom ou melhor do que os seus antecessores ou os dos clubes rivais. Mas sabemos com certeza que é o mais giro e, para início, isso não é pouco. As minhas colegas estiveram, hoje, muito mais disponíveis para falar comigo, mesmo sobre futebol, melhorando imenso o ambiente de trabalho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

How Democracies Die

O apuramento dos resultados das eleições do Sporting coincidiu com a leitura de “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Demorando seis horas para anunciar os resultados finais, o trapalhão do Marta Soares conseguiu que lesse o livro todo antes de ficar a saber que Frederico Varandas era o novo presidente do Sporting. Há males que vêm por bem.

A sobrevivência das democracias não depende exclusivamente da existência de constituição que as defenda nem de eleições livres. Depende de muitas regras, mais tácitas do que explícitas. As mais importantes são a da autolimitação de quem exerce o poder e a do respeito pelo adversário, nunca em nenhum momento, por muito que se discorde, deverá ser considerado nem insinuado como ilegítimo.

O Sporting não vive em nenhum sistema presidencial nem parlamentar. Apurados os resultados, as candidaturas e os seus protagonistas deixam de representar quem quer que seja e os diferentes órgão sociais eleitos passam a representar todos os sportinguistas. Os sportinguistas a partir desse momento passam a representar-se a si próprios nas Assembleias Gerais. O que visa as eleições é assegurar a livre escolha de órgão sociais do clube que garantam a prossecução dos seus objetivos e a perenidade da organização.

Desse ponto de vista, mal acaba o ato eleitoral, deixa de haver vencedores e vencidos. Há órgãos sociais eleitos e que passam a exercer funções e nada mais, em benefício do Sporting e dos seus associados, representando-os a todos. O João Benedito e o Frederico Varandas estiveram muito bem nas declarações finais. O João Benedito reconhecendo o Frederico Varandas como seu presidente. O Frederico Varandas reconhecendo, com humildade, que, pela sua relevância como atleta do clube, o João Benedito tem um lugar inapagável na história do Sporting.

Há só um ponto que vi esgrimido no final das eleições e que vem da deriva autocrática do passado e daquela que há no pior de cada um de nós. Depois de eleito pelas regras vigentes, Frederico Varandas é o legítimo presidente do Sporting. O facto de ter menos eleitores não diminui em nada a sua legitimidade. As regras, tácitas e explícitas, não se colocam em causa, sob o risco de se colocar em causa o modo de vida democrático. Espero que se tenha aprendido com a experiência e se deixe de brincar aos estatutos e regulamentos, com alterações sob chantagem e sem se cuidar das regras de convivência que estabelecemos e nos permitiram chegar até aqui após mais de cem anos de existência.

sábado, 8 de setembro de 2018

Para todos os gostos

Hoje é um importante dia de Sporting. Estamos perante um acto eleitoral, vai-se tornando um hábito, mas bastante diferente do habitual. Praticamente ninguém se recandidata. De resto um pouco de tudo.

Temos candidaturas que fazem do futebol a sua bandeira, candidaturas que apostam nas modalidades. Temos candidaturas mais próximas de modelos empresariais, de clube-empresa, outras que nem querem ouvir falar disso. Temos candidatos que conhecemos desde sempre, outros que nunca tínhamos ouvido falar. Candidatos do Sporting de Lisboa, outros do Sporting do país. Candidatos que apostaram tudo numa boa empresa de comunicação, outros que nem à televisão foram. Candidatos que o foram e desistiram, candidatos que queriam ser e não o são. Há para todos os gostos, e isso é positivo. Vamos ter o Sporting que a maioria dos sócios quiserem. Podemos escolher e não há nada de errado nisso.

Também temos opinion makers que acham que ter muitos candidatos é mau. Mesmo apesar de alguns deles terem feito parte de Governos que conseguiram maiorias parlamentares com uns 40% dos votos, acham que o Presidente do Sporting precisa de ter um resultado quase Venezuelano para ter legitimidade. Não podia discordar mais. O último Presidente teve 90% e deu no que deu...

Posto isto vamos votar e esperar os resultados. Hoje o Sporting só pode sair a ganhar!

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Copiões

Ontem, fiquei num hotel em Lisboa a passar a noite. No quarto, comecei por preparar a reunião de trabalho de hoje que tinha justificado a minha deslocação. Acabada essa tarefa, fiquei sentado na cama com o comando da televisão na mão a desfilar os canais, tentando ultrapassar o habitual tédio deste momento (o mais deprimente de quem está habituado a viajar em trabalho). Independentemente dos canais, o tema era sempre o mesmo: Benfica, Benfica e mais Benfica.

Com o BdC, todos os canais se transformaram na SportingTv. Sentíamo-nos sempre em casa. Agora, todos os canais se transformaram na BenficaTv. Não nos sentimos em casa, mas o processo mediático é o mesmo. De repente, temos especialistas de bola a falar sem se rirem de Código Penal e Código Processo Penal; temos juristas a falar disso, mas, sobretudo, de bola e de cabalas sem se rirem também. Na SportingTv os temas e os intervenientes eram os mesmos. Os benfiquistas não suportam o sucesso dos outros e desataram a copiar-nos: copiões, é o que eles são.

Como tinha dito aqui e aqui, os administradores da SAD do Benfica começaram por considerar que o facto de não saberem implicava a não existência. Agora, passaram a considerar simplesmente que o facto de não saberem (só eles, Deus e o Ministério Público é que sabem se sabem ou não) não os responsabiliza. Aparentemente, há quem alinhe nesta nova metafísica da linguagem que não é nova, se nos lembrarmos das declarações dos administradores da PT e do BES na Comissão de Inquérito da Assembleia da República.

Numa organização que se preze, o desconhecimento dos seus administradores de atos e factos potencialmente graves responsabiliza-os por isso mesmo: por não saberem. É suposto que saibam e, sobretudo, que não ignorem. É para isso que lhes pagam salários simpáticos. Neste caso, a situação agrava-se. Podiam não saber dos factos, mas sabiam da gravidade das suspeitas e nenhuma diligência interna efetuaram entretanto para os apurar ou, pelo menos, não o demonstraram.

Numa organização que se preze, existindo suspeitas, o funcionário é suspenso de funções e é aberto respetivo processo de inquérito para apuramento de atos, factos e, potenciais, responsabilidades, podendo acabar em procedimento disciplinar. Estas diligências efetuam-se, antes de mais, para defesa da organização e do próprio funcionário. O que os administradores da SAD do Benfica deviam estar a informar os acionistas, os sócios do clube e os adeptos em geral era dessas diligências e respetivas conclusões; e não a fazer juras de desconhecimento e de “licitude”.

Numa organização que se preze, administradores que assim não procedessem iam para o olho da rua pelo seu próprio pé ou empurrados quando viessem com juras e não com atos e conclusões. Esta responsabilidade pode não ter contornos criminais (os tribunais é que servem para isso), mas não deixa de ser responsabilidade e de ter responsáveis (embora esta responsabilidade seja de natureza diferente da anterior, embora potencialmente complementar em função da gravidade dos atos e factos apurados internamente e consequente comunicação ao Ministério Público).

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O interlúdio de Sousa Cintra e da Comissão de Gestão

Depois de todos os incidentes que, podemos dizer, se iniciaram com o jogo entre o Atlético de Madrid e se concluíram com a destituição de BdC, o Sporting estava escaqueirado (este é o termo exato). Os sócios e adeptos estavam divididos, não havia direção, nem treinador (ou havia um que ganhava um balúrdio sem nada no currículo que o justificasse) e os principais jogadores tinham rescindido alegando justa causa sem que houvesse dinheiro para contratar outros de igual valia. É neste contexto, caótico, que é designada a Comissão de Gestão, assumindo Sousa Cintra a liderança da SAD.

Ninguém, no seu juízo perfeito, esperava milagres ou, dizendo melhor, esperava um único milagre: que se realizassem com a normalidade possível as eleições e, até lá, que o Sporting desportivamente não desaparecesse. Esperava-se que a Comissão de Gestão ganhasse tempo precioso para que Sporting pudesse voltar à normalidade.

A Comissão de Gestão cometeu seguramente erros, mas cumpriu o essencial e o essencial não era fácil. Contratou um dos poucos treinadores experientes que se encontravam disponíveis para pegar a prazo numa equipa que ainda nem se sabia que equipa era. Assegurou o regresso do Bruno Fernandes, do Bas Dost e do Battaglia. Negociou e vendeu o William Carvalho para o Bétis de Sevilha. Contratou os jogadores que pôde dentro das preferências do treinador e das disponibilidades financeiras. A equipa tem feito o que pode e à quarta jornada o Sporting está na frente do campeonato, depois de ter defrontado o Benfica na Luz.

Podemos analisar as decisões tomadas pela Comissão de Gestão e pelo Sousa Cintra e se se encontram reunidas (ou não) as condições necessárias para o Sporting dispor de uma equipa de futebol competitiva. Mas, como sempre costumo dizer, antes das explicações vêm os resultados. A primeira avaliação é se os resultados esperados foram concretizados. Esperava-se que ganhassem o tempo necessário para que uma nova direção pudesse tomar legitimamente posse, depois de ser escolhida pelos sócios do Sporting, sem entretanto se comprometer o futuro mais do que estava.

Pode-se sempre afirmar que podiam ter feito mais e melhor, mas uma coisa é certa: o Sporting tem um treinador, uma equipa com bons jogadores e está em primeiro lugar do campeonato. Naqueles que eram os resultados essenciais, a Comissão de Gestão e o Sousa Cintra cumpriram e o Sporting conseguiu a normalidade possível. Para o bem ou para o mal, o passado é da responsabilidade da anterior direção e o futuro será da direção que vai ser eleita no próximo dia 8.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Salvos pelo Castaignos ou pelo Princípio da Incerteza de Heisenberg

Caros amigos (esta resulta da influência das crónicas do Nelson Rodrigues que ando a ler), no sábado, finalmente pude ver um jogo do Sporting do primeiro ao último minuto no Flávio. Na mesa e na cadeira do costume, à distância certa da televisão. Com os sportinguistas de sempre, cinco, contando comigo e com o dono do café, e contra todos os benfiquistas que ocupam o resto da sala e não se calam um segundo. No meu “habitat”, consegui ver o jogo como gosto de ver para vos puder relatar como deve ser.

O Peseiro escala uma equipa como qualquer um de nós o faria. Há um guarda-redes, quatro defesas, os mais altos jogam a centrais, e um ponta-de-lança, sendo os restantes distribuídos pelo campo de forma mais ou menos equilibrada espacialmente, três mais ou menos no meio, uns mais à frente e outros mais atrás, e dois mais ou menos nas laterais. Este equilíbrio territorial, que se baseia numa certa simetria longitudinal na disposição dos jogadores, é um bom princípio de jogo. É um bom princípio, mas o jogo tem mais que o princípio e, mesmo com todas as perdas de tempo dos jogadores do Feirense, sob o olhar complacente do árbitro, é necessário assegurar que tenha um bom meio e um bom fim, isto tudo durante noventa minutos.

Este bom princípio rendeu logo uma excelente jogada de ataque. O Bruno Fernandes desmarcou-se entre o central e o lateral do lado esquerdo, centrou atrasado, o Nani rematou de primeira contra as pernas de um defesa, a bola ressaltou para o lado onde apareceu o Acuna a fechar os olhos e a acertar com a bola numa perna do guarda-redes. Depois, bem, depois foram acontecendo coisas. Não sei descrever as coisas que foram acontecendo a não ser como coisas que são. O Battaglia pegava na bola e corria do meio para o lado direito até esbarrar em alguém e voltar para trás e passar a bola. O Acuna fazia o oposto, pegando na bola e correndo do meio para o lado esquerdo até esbarrar em alguém também e passar a bola. O desespero vai-se apoderando de um e de outro até que um dos centrais resolve iniciar a jogada de ataque, normalmente o Coates, enfiando um biqueirada para a frente ou passando a bola junto à linha para um dos laterais. O Nani e o Bruno Fernandes bem tentavam desmarcar-se para dentro ou para fora, mas a bola não lhes chegava, não lhes servindo de nada esbracejar. O Montero esforçava-se no famoso jogo entre linhas mas sem que a bola chegasse por uma vez para tabelar com um médio ou com um extremo.

Os jogadores do Feirense também não faziam nada que se visse. Demoraram a adaptar-se à nossa pressão alta um pouco caótica, não conseguindo sair com bola e limitando-se a umas biqueiradas que os centrais e o Battaglia inevitavelmente resolviam. Havia isto tudo e o Jéfferson que é um caso à parte. É irrelevante que à sua ferente esteja um jogador de carne e osso, um soldadinho de chumbo ou um jerrican, quando procura centrar a bola acerta sempre no adversário que está à sua frente.

No início da segunda parte, tudo piorou, se ainda era possível. Os jogadores do Feirense deixaram de se atrapalhar com a suposta pressão alta e passaram a dominar o jogo a toda a sela. Não criaram grande perigo porque não sabem mais e a nossa defesa também não dá abébias (o André Pinto está a revelar-se). Só que, simplesmente, deixámos de chegar à área contrária. Como é quase impossível marcar qualquer golo sem se chegar lá, o Peseiro fez o que costuma fazer e que é a única tática disponível neste momento: meteu o Jovane Cabral e tirou o Jéfferson. O acerto foi total, na entrada e na saída.

A jogar com onze e o Jovane Cabral a correr como se não houvesse amanhã, por contágio, os restantes jogadores desataram a correr também. O jogo ficou partido que é como o Battagalia mais gosta de jogar, mais de metade do relvado e meia equipa adversária ficam por sua conta. Os jogadores do Feirense deixaram de ter descanso e montamos-lhe definitivamente o cerco, passando à fase do tiro ao boneco com o Salin a encarnar no Caio Secco, guarda-redes do Feirense, e a parar todos os remates. Estava-se neste impasse quando o Peseiro, na sua cabeça, assumiu que só com um jogador que tivesse com a bola uma relação baseada no Princípio da Incerteza de Heisenberg é que seria possível ganhar o jogo. O Castaignos é o jogador que, no Mundo, mais dificuldades tem em determinar simultaneamente a posição e a velocidade da bola, às quais adiciona a tradicional dificuldade de escolha da extremidade do corpo mais adequada para a jogar.

A sua entrada foi decisiva. Bola metida em profundidade à procura da velocidade e da desmarcação do Raphinha, o defesa esquerdo corta de cabeça para o meio onde, à entrada da área, o Castaignos a recupera e a passa ao Raphinha definitivamente. O Raphinha domina-a e levanta a cabeça, percebendo que não tem a quem a passar, faz pedalada e meia e passa por fora o defesa e ganha a linha, toca de calcanhar para trás e simula que vai centrar, acabando por fazer uma cueca no defesa que apanha o Ristovski desmarcado e em grande aceleração. O Ristovski junto à linha de fundo não vai de modas e centra rasteiro de primeira para a entrada da pequena área onde aparecia o Castaignos a atrapalhar um defesa, a bola passa por ele e o Jovane Cabral ao segundo poste antecipa-se a um adversário e em esforço mete-a lá dentro. Chegados a este ponto percebe-se melhor a entrada do Castaignos: foi a sua incapacidade em determinar simultaneamente a posição e a velocidade da bola que permitiu, por um lado, atrapalhar os defesas e, por outro, a entrada convicta do Jovane Cabral. Esta incapacidade é reconhecida pelo próprio, como se viu na forma como deixou a bola para trás e entrou a toda a brida pela baliza dentro, não estorvando, assim, a possibilidade de finalização do seu colega.

O Jorge Jesus, supostamente, tinha uma ideia de jogo e era apegado a ela. A ideia era estúpida, como se viu pelos resultados, mas uma ideia é sempre uma ideia, quando, na cabeça, para além dela só se dispõe de um risco ao meio. Quanto ao Peseiro não se sabe se tem uma ideia de jogo, mas, se tem, não parece muito apegada a ela, porque nunca percebemos muito bem o que se está a passar em campo. A ideia de jogo é capaz de ser a ideia que cada jogador tem de si próprio e dos seus colegas. É uma ideia que se vai construindo ao longo do jogo. Pouco a pouco, os jogadores esperam entender-se, trocando ideias. É um “brainstorm” permanente. No final, com uma ideia, sem ideia nenhuma ou com tantas ideias quantas as cabeças, o resultado é o mesmo: uma hora de avanço concedida ao adversário e meia hora com o credo na boca. Sendo o resultado o mesmo e o ordenado infinitamente mais reduzido, podemos concluir, como qualquer economista, que estamos muito mais eficientes: o custo por golo marcado e por ponto conquistado reduziu-se e muito.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Continuação dos prolegómenos sobre a metafísica (do) benfiquista

Esta minha incursão pela metafísica suscitou mais interesse do que esperava. Não sei se foi da (pseudo) filosofia ou do Benfica. Porventura, terá sido da entremeada. Mas nem só de comunicados da SAD vive a filosofia (do) benfiquista. Há mais declarações que implicam análise rigorosa.

Quando perguntado sobre as claques do Benfica, Luís Filipe Vieira respondeu: “Nunca sube que o Benfica tinha claques”. A conjugação da primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo saber com pronúncia açoreana não é para aqui chamada. O que é para aqui chamada é a relação entre saber ou conhecimento e existência. Há quem afirme que o que existe define os limites do que se sabe. Luís Filipe Vieira afirma o contrário, o que se sabe define os limites do que existe, isto é, o que não se sabe não existe. No entanto, uma questão subsiste: e quando se insiste em não saber? Bernardo Soares diz-nos que não saber é não existir. Neste caso, quem insiste em não saber, existe, está-se é a fazer de morto.

Na conferência de imprensa após o jogo do Benfica contra o Sporting, Rui Vitória afirmou: “Foi uma arbitragem descontrolada”. Este qualificativo da arbitragem não se define por si próprio, define-se por oposição ao seu antónimo. Neste caso, não se põe o dilema do “ovo e da galinha”, foi a galinha (a arbitragem controlada) que apareceu primeiro. Quem sabe o que é uma arbitragem descontrolada, “mutatis mutantis”, sabe o que é uma arbitragem controlada. Voltando à metafísica benfiquista, o saber é o princípio da existência: se se sabe o que é uma arbitragem controlada então é porque tal tipo de arbitragem existe. Os “vouchers” e os emails indiciavam que tal existisse, embora o Benfica se tenha recusado a aceitá-lo. Desse ponto de vista, a afirmação do Rui Vitória é revolucionária, não chega à conclusão pelos factos mas pela filosofia.

Depois da SAD do Benfica ser constituída arguida no caso e-Toupeira, na televisão, André Ventura afirmou: “Isto não tem a ver com corrupção desportiva, tem a ver com corrupção dita comum: a corrupção definida no Código Penal”. A relação vai para além do saber e da existência, envolvendo a linguagem. Há quem afirme que a linguagem e o conhecimento são uma e a mesma coisa, só se sabendo o que se consegue formalizar de algum modo. É a linguagem que define os limites do que se sabe. Se perguntassem a André Ventura o seguinte: “Senhor doutor, o que pensa de corrupção que envolva a magistratura do Ministério Público?”. A resposta seria lapidar: “É comum”. Os significados de comum são: vulgar, frequente, habitual, que não tem grande significado ou valor. Neste caso, é a linguagem que (de)limita a existência ao (de)limitar o que se sabe. Em conclusão, nada disto é potencialmente grave, é comum, vulgar, frequente, habitual e não tem grande significado ou valor.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Eu (não) sei, tu (não) sabes, ele (não) sabe, nós (não) sabemos, vós (não) sabeis, eles (não) sabem

A SAD do Benfica foi constituída arguida no processo e-Toupeira. O Conselho de Administração da SAD efetuou uma nota de imprensa para exprimir o seu desacordo relativamente a esta decisão judicial. Este texto dispõe de todos os requisitos metafísicos para se transformar no equivalente pós-moderno do socrático “só sei que nada sei”. O texto merece uma leitura atenta tal a densidade analítica. Destaca-se uma afirmação: “Nenhum membro do Conselho de Administração da SAD do SLB sabe o que o Dr. Paulo Gonçalves sabe ou não sabe”.

Quando alguém afirma que não sabe o que o outro sabe ou não sabe está admitir não saber e saber ao mesmo tempo, um paradoxo que precisa de adequado esclarecimento filosófico. O que o outro não sabe não se define por si próprio, define-se por oposição ao que sabe, isto é, constitui um resíduo ou a diferença entre tudo o que potencialmente pode saber e aquilo que sabe efetivamente. Não saber o que o outro não sabe é, assim, saber o que o outro sabe. Por maioria de razões, não é possível não saber o que o outro sabe sem admitir pelo menos que ele sabe o que sabe. 

Numa leitura mais apressada, poder-se-ia admitir que se está em presença de desculpas, verdadeiras ou falsas. No entanto, para esse efeito, deveria ter sido utilizada outro tempo verbal: “Nenhum membro do Conselho de Administração da SAD do SLB sabia”. Parece mais correta, tanto mais que membros desse Conselho de Administração foram inquiridos antes da SAD ser constituída arguida. Admitir que “não se sabia” pressupõe que se passou a saber, pelo menos. Mas a utilização do presente do indicativo em vez do pretérito imperfeito revela o alcance da mensagem. Não se pretende esclarecer, pretende-se criar um oxímoro que nos leva a Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa): “Saber é matar [...]. Não saber, porém, é não existir”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Aos amigos favores, aos inimigos a lei

No jogo contra o Moreirense, três jogadores do Sporting protestaram três decisões do árbitro e foram sancionados com três amarelos. Nada a dizer: lei é lei. Contra o Benfica, a equipa do Sporting procurou perder tempo e o árbitro compensou com seis minutos de descontos. Nesses descontos, voltou a perder tempo e o árbitro compensou com mais cinco minutos. Nada a dizer: lei é lei.

Fica-se a aguardar que num só jogo três jogadores do Porto ou do Benfica sejam sancionados com os correspondentes amarelos por protestarem decisões do árbitro. Fica-se a aguardar que qualquer uma destas equipas tenha o jogo prolongado por mais onze minutos por perder tempo.

sábado, 25 de agosto de 2018

As bandarilhas de Peseiro

Se bem percebi o que fui lendo esta semana, este jogo era um pró-forma. O Benfica tinha o jogo ganho, só não se sabia por quantos, e os sportinguistas estavam conformados. Quando soube a meio da tarde que o Mathieu não jogava e imaginei um lado esquerdo da defesa com o André Pinto e o Jéfferson, eu próprio não fiquei muito otimista.

O Peseiro surpreende pela simplicidade, sobretudo pela simplicidade como aprende. Contra o Moreirense, tentou jogar com o Battaglia e um estorvo ao lado e não resultou. Contra o Setúbal, tentou jogar com o Battaglia e outro estorvo ao lado e não resultou também. Hoje, jogou sem nenhum estorvo e resultou. Sem um estorvo, pode entrar um jogador que saiba jogar à bola. Jogou o Raphinha, para sorte nossa e dele e para azar do Grimaldo e do Benfica. A colocação do Raphinha do lado direito e a insistência em jogar por esse lado mesmo nos pontapés de baliza, condicionou a construção de jogo do Benfica, que vive de correrias pelas laterais.

O Benfica passou a contar com três arruaceiros para construir jogo: Rúben Dias, Jardel e Fejsa. Com eles e, por vezes, com o André Almeida, que nem o treinador nem a direção confiam, mas lança mau olhado a qualquer contratação para a sua posição. Com o Battaglia e o Acuna a controlarem o Pizzi, restava ao Benfica apostar todas as fichas no nosso Jéfferson. Apostou no Rafa e apostar no Rafa é o mesmo que apostar no Jéfferson mas ao contrário. O Benfica ficou limitado às bolas paradas e aos ressaltos. Nós, ficámos limitados à sorte e às abébias dos sarrafeiros da defesa adversária, dado que o nosso plano era o de evitar que o Benfica pudesse dispor do seu.

O jogo ficou ensarilhado e ensarilhado continuou durante noventa minutos. Em dois cantos os jogadores do Benfica esforçaram-se por acertar no Salin, que para os não humilhar resolveu fazer uns voos encarpados com meia pirueta. Num lançamento de linha lateral, a bola ressaltou no cocuruto da cabeça de um jogador do Sporting e permitiu uma rosca ao Cervi para grande defesa do Salin. Ao contrário, o Acuna rematou ao lado e o Montero antecipou-se ao Ruben Dias mas não conseguiu desviar a bola para a baliza.

A segunda parte prometia mais do mesmo. Só que do Rúben Dias é um jogador perigoso em todos os sentidos, para as canelas e outras componentes anatómicas que estejam abaixo do pescoço dos jogadores adversários, para a sua própria equipa sempre que árbitro não tenha sido devidamente ordenado. Centro atrasado, em “slow motion” Montero simula que se vai fazer à bola pelas costas do defesa, muda de trajetória e ganha-lhe a frente e o Rúben Dias com a raiva do engano procura arrancar-lhe os ligamentos dos tornozelos e uma rótula. Penalty e Nani a fazer um a zero. O Rui Vitória desatou a fazer substituições que só resultaram porque, por um lado, o Luís Godinho recuperou mais bolas do que o Gedson, e, por outro, o Peseiro enlouqueceu, fazendo entrar um dos estorvos e esperando que desta vez tivesse um resultado diferente.

Empatámos, mas é difícil o Benfica voltar a sofrer semelhante humilhação: acabar por não ganhar um jogo contra uma equipa onde jogaram o Castaignos, o Jéfferson e o Petrovic. O Peseiro enfiou estas três bandarilhas, se não contarmos com a do Salin. Enfiou, por fim, a bandarilha que está enfiada desde o primeiro dia: por um vigésimo do salário qualquer treinador português consegue fazer pelo menos o mesmo do que o Jorge Jesus (poupando-se, ainda, na bazófia).

domingo, 19 de agosto de 2018

A lei de Peseiro


A equipa não entrou condicionada, mas quase. Não fosse o Nani inventar um daqueles lances cujo epitáfio se resume a (supostamente) inofensivo, e o jogo ainda demoraria a criar uma ideia que tivesse um pernil do passado recente. Não basta ter uma ideia, é preciso acreditar nela. Ainda bem que não acreditámos. E se é para correr mal, corre(rá) de qualquer maneira. Como aconteceu, aliás, logo a seguir. Depois podíamos ter marcado. Ou não. O adversário acreditou que não. E continuou na sua toada de quem remoí um sentimento a reboque de mais um erro adversário.

No intervalo saiu o Bas Dost. O Dost e o Fernandes nem tinham entrado. Os últimos acontecimentos da novela dão-lhes uma resma de ideias de rescisão suficientes para tirarem um curso de direito por linhas tortas. O Peseiro intuiu.  Eu também. No nosso campeonato basta colocar alguém com vontade de jogar e jeito para a coisa. O orçamento e a cor da camisola podem ser letais em determinadas circunstâncias. Com os árbitros e demais entidades sobrenaturais não podemos contar. Entrou o Jovane. Eles sabiam. O Peseiro sabia que eles sabiam. Nós não. Estávamos nervosos. Com o Jovane as coisas tornam-se mais rápidas e imprevisíveis. O Nani sabe disso. O Nani andou por esse mundo fora onde se joga à bola a sério. Em Portugal a bola tem muitos nomes e alguns apelidos. Nani facilmente será um deles.

De resto imperou a lei de Peseiro: Nunca voltes a um sítio onde foste infeliz (o que não está provado). 

domingo, 12 de agosto de 2018

A Lei de Murphy de pernas para o ar ou a vitória do bem sobre o mal

Vamos fazer um suponhamos. Vamos supor que esta época se iniciava nestes termos com o Jorge Jesus a treinador. Com jogadores a chegarem a conta-gotas, com outros que não se sabe se vão definitivamente ou se voltam. Com o Jéfferson a lateral esquerdo e sem o William Carvalho ou um substituto como o Petrovic. Com uma Direção em gestão à espera de outra que nunca mais se elege nem a malta almoça. Teríamos desculpas, muitas desculpas. Teríamos “bullying” permanente sobre os jogadores e sobre a Direção.

Este jogo era para correr mal. O Sporting vive uma combinação có(s)mica de azares e trapalhadas que só a Lei de Murphy de pernas para o ar é que nos podia valer: se alguma coisa puder correr bem, correrá. Tudo o que podia correr mal, correu, mas tudo o que podia correr bem, correu também. O bem ganhou ao mal.

Ganhou o bem e o Peseiro, que revelou a habitual sagacidade de um treinador português: se queres ganhar um jogo encanzinado em Moreira de Cónegos, mete dois extremos rápidos, tira duas lesmas e borrifa-te para a ideia de jogo que possas, ou pensas, ter. É esta intuição simples que o Jorge Jesus perdeu no seu labirinto de táticas e opções inextrincáveis. Não lembraria àquela cachimónia de risco ao meio retirar um jogador com o estatuto do Nani e meter um miúdo como o Jovane Cabral. Não lembraria, antes de mais, porque o Jovane Cabral nesta altura estaria dispensado. Se, por falta de alternativas, não estivesse, nem para o banco iria. Como na época passada, seriam adaptados o Misic ou o Wendel.

Ganhámos nós também. Ganhámos três pontos onde na época passada tínhamos período dois. Ganhámos com o regresso do Bruno Fernandes e do Bas Dost. É uma delícia voltar a ver jogar o Bruno Fernandes, mesmo, como hoje, quando o tem de fazer contra o resto do mundo. É uma delícia começar a ver o Bas Dost a devolver, ponto por ponto, os pontos que uns anormais lhe agrafaram na cabeça (marcou um “hat-trick” que só não valeu porque o VAR estava convenientemente desligado). 


(O Nelson Évora é Campeão Europeu. Ganhou o único título ao ar livre que lhe faltava. Foi do Benfica. É do Sporting. É um grande atleta. É um grande português)

sábado, 11 de agosto de 2018

O que leva uma criança a sonhar com uma camisola do Olympiacos?(*)

É de Viseu, fez no domingo oito anos.

É de uma candura extraordinária. O impulso que o leva a abraçar os pais, a ternura e o brilho que lhe envolve o rosto nesses momentos é reveladora da pureza dos seus sentimentos. Naqueles gestos compreende-se o verdadeiro afeto. Compreende-se também o poder oculto e torrencial das crianças. Não são cerebrais estes impulsos e obrigam-nos a refletir no que de mais puro tem a vida na sua essência. Um abraço daqueles faz fugir o chão debaixo dos pés e somos levados à dimensão etérea do amor levando-nos a perdoar-lhes de imediato o que por vezes parece imperdoável.

Tem a paixão do futebol e um amor imensurável ao Sporting - "No dia em que entrar em Alcochete não volto papá" - deve ser arrepiante um pai ouvir esta frase da boca de um filho a quem nunca faltou afeto.

Tem também um ídolo: Daniel Podence. Adoeceu quando este abandonou o clube. Mera coincidência? Talvez não. No dia do seu oitavo aniversário pediu que o bolo tivesse a fotografia do seu ídolo e um emblema do clube. Assim se fez. Gostou do bolo mas não era perfeito. "Sabes mamã, um dia o Jesus disse que tinha uma profunda admiração pelo Podence. Eu podia ter no bolo - Pedro tem uma profunda admiração pelo Podence."

Como se explica a uma criança destas os acontecimentos de Alcochete e as rescisões? Como se explica esta traição?

Daniel, desafio-te a fechares os olhos vestires a pele deste menino e reviveres a tua estada em Alcochete. Onde vês a maldade de quem te acolheu de braços abertos? Onde está a violência de quem te ajudou a desenvolver e potenciar o dom com que Deus te brindou? Que verdadeiras razões tens para invocar a rescisão, sem serem aquelas que apareceram na comunicação social e que, a nós que te admiramos, não dizem nada? Quem esteve ao teu lado quando choravas com saudade o amor insubstituível dos pais? Que valores faltaram incutir-te para seres um verdadeiro homem de modo a podermos dizer aquela criança que sim, tu és um digno e verdadeiro ídolo de quem ela se pode orgulhar?

O Sporting não são aqueles trinta, quarenta ou cinquenta de Alcochete. O Sporting são pessoas como este menino e muitos outros adultos incapazes de te odiar porque te olhamos com os olhos dele e te sentimos como ele sente. Os valores da Academia não foram engolidos pelos abutres que agora te aconselham e sabemos que guardas ainda no teu interior o mais sublime deles - o respeito pelo outro e por ti próprio por isso um dia ainda vais ser capaz de explicar ao Pedro o porquê da tua atitude. Sim, chama-se Pedro. Ofereceram-lhe, no dia do oitavo aniversário, uma camisola da Juventus com o nome do Ronaldo gravado mas, o que ele queria mesmo era uma camisola do Olympiacos gravada com o teu nome. Boa sorte no teu novo clube.


(Quem te aconselhou na decisão da rescisão e na de assinares pelo Olympiacos teve realmente uma brilhante ideia. O presidente deste clube é uma pessoa dócil, afável e respeitadora dos direitos dos seus funcionários. Não foi ele que insultou os jogadores da equipe por causa de uma exibição menos conseguida? Não foi ele que multou os jogadores depois de uma dura reprimenda com eco nos jornais e televisões de toda a Europa? Não foi ele que irritado mandou todos os jogadores de férias e quis acabar a época com os miúdos dos Sub-20? Que vais fazer quando ele voltar a comportar-se deste modo? Decerto vais pedir novamente a rescisão porque atitudes destas foram também motivo para nos abandonares. No dia em que quiseres regressar cá estaremos novamente para te receber de braços abertos e mataremos o melhor novilho. Diremos depois aos teus colegas de balneário: " Não fiqueis incomodados com a festa de receção que presenciais, porque este vosso irmão esteve perdido e achou-se, esteve morto e reviveu").

(*) Carlos Trindade Gomes

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Votar para fazer a diferença

O futebol é o assunto mais importantes de todos os não importantes. As nossas vidas, felizmente, têm coisas mais importantes e interessantes do que um Sporting-Benfica ou um Sporting-Porto. Onde trabalho, procuramos apoiar iniciativas de muitas organizações, públicas e privadas. Essas iniciativas têm contribuído para que sejamos um país melhor, na economia, na ciência, na educação, na saúde ou no apoio social.

Por detrás dessas organizações, está gente de carne e osso que todos os dias dá o seu melhor para nos pudermos orgulhar do país que somos. Ao pé deles, os protagonistas do futebol não passam de uns trastes. Há iniciativas destas que são distinguidas na Europa e no Mundo. Este ano temos as seguintes duas que são finalistas aos Prémios RegioStars da União Europeia:


Não me vejo a pedir votos para mim próprio. Mas se estas duas iniciativas ganhassem, sentia-me como se tivesse sido eleito Presidente do Sporting. Seria uma vitória à Sporting, uma vitória do que realmente vale a pena (quando a alma não é pequena, digo eu). Carreguem nos links e façam o favor de votar. Pelo Sporting! Por nós!

(Quem acedeu ao blogue para ler mais uma das rábulas das eleições do Sporting, pode ler o “post” da Maria Ribeiro. Está lá tudo dito e não é possível dizer melhor)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Wake me up when September ends


Miguel Poiares Maduro, secundado por outros associados, apresentaram há dias uma posição publica conjunta a pedir o adiamento do ato eleitoral do Sporting com dois propósitos. Primeiro, dar tempo para que haja uma convergência entre diferentes candidaturas, com a finalidade de que a lista vencedora ao Conselho Diretivo tenha o maior respaldo possível. A segunda, para dar tempo de clarificar em definitivo a situação dos vários candidatos que se encontram sob alçada disciplinar.

O primeiro ponto, parece-me relativamente irrelevante. De facto, não me parece de todo preocupante que o ato eleitoral dê visibilidade ao pluralismo de posições que caracterizam historicamente o Sporting, nem me parece que mesmo que alguém vença com 71%, os outros 29% se remetam ao silencia, conforme a experiência recente deixa claro. Naturalmente, que haverá candidaturas que não representam nada mais do que a vaidade dos seus subscritores, mas essas ou não chegarão ao ato eleitoral, ou terão um numero risível de votos.

A segunda parte parece-me mais relevante. No respeito pela pluralidade, é indispensável que os associados que entendem que o projeto dos anteriores órgãos sociais é o mais adequado, possam ter representação eleitoral. Seja em listas encabeçadas por antigos membros do Conselho Diretivo, seja em listas lideradas por outros nomes por impossibilidade regulamentar dos primeiros.

Mas para que tal aconteça é preciso tempo. Se a justiça precisa de tempo para ser justa e não pode ser apressada, então o processo eleitoral também deve ter um tempo justo para que haja igualdade de oportunidades.

Infelizmente, nestes dias de brasa e de histeria, os mais beneficiados por esta decisão são os que mais a criticam. “Psicólogo?  O psicólogo era para…?”

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Gostei do que vi

Depois de uma semana de trabalho intenso (e insano), sentei-me no Flávio para ver o jogo de apresentação contra o Marselha com o melhor dos estados de espírito possível. Mal começou o jogo, um canto a nosso favor deu origem a um golo do adversário, um clássico em Alvalade. Ninguém se lembrou de avisar o Viviano que não estava a jogar contra o Moreirense ou o Tondela, equipas que quem não se espera que vão pressionar o guarda-redes. Um erro, um golo, que não se irá repetir no campeonato pelas razões apontadas.

Gosto do Viviano, salvo seja. Os guarda-redes italianos são os melhores do Mundo. Dizem que este está gordo. Para mim, o arquétipo do guarda-redes italiano é o Angelo Peruzzi, que jogou na Juventus. Era gordo e ninguém chegou a saber se era de nascença ou se tinha engordado. Para defender, fazia o estritamente necessário. Entre um voo para a fotografia e dar dois passos para encaixar a bola, optou sempre pela defesa energeticamente mais eficiente. A concentração e a colocação entre os postes sempre foram a melhor forma de defender.

A perder por um zero, desatámos a jogar à bola. O problema parece ser a primeira fase de construção, como agora se costuma dizer. Mas quando a bola chega ao Nani ou ao Bruno Fernandes o nosso jogo ganha outra dimensão atacante. Os laterais envolvem-se bem no ataque e mesmo com a mosca morta do Montero na frente podíamos ter marcado.

Quando menos se espera e nos locais mais improváveis, o trabalho volta. Uma colega que passou pelo Flávio viu-me, dirigiu-se-me e desatou a azucrinar-me a cabeça. Só voltei a ver o jogo aos cinco minutos da segunda parte. Percebi melhor a escolha do Marselha para o jogo de apresentação. Os jogadores davam pau a toda a sela e o guarda-redes queimava tempo em qualquer reposição de bola (deram-se ao trabalho de fazer não sei quantas substituições no tempo de descontos, inclusivamente). Bom treino para o primeiro jogo do campeonato contra o Moreirense.

Nós continuávamos a jogar bem, mas sem um referência no ataque para as meter na baliza. Até que num canto, esqueceram-se do Bruno Fernandes e este pegou na bola e colocou-a no sítio onde esperava que aparecesse a cabeça do André Pinto. A cabeça apareceu, a bola tabelou-lhe e o guarda-redes fez uma grande defesa, mas permitindo que o André Pinto recarregasse com o pé que tinha mais à mão. Depois começaram as substituições. Quando se esperava que o jogo acalmasse, com a entrada do Bas Dost e do Coates, os nossos calmeirões para as bolas paradas, desatámos a tentar ganhar o jogo como se não houvesse amanhã. Não conseguimos, mas esteve por centímetros.

Gostei do que vi, em particular da dinâmica de ataque. Os laterais deixaram de servir exclusivamente para apoio aos extremos naquele futebol moído de ganhar a linha e voltar para trás e fazer a roda ao bilhar grande tantas vezes quantas as necessárias até adormecermos. Gostei especialmente do Bruno Fernandes e do Nani. Há jogadores esforçados e jogadores inteligentes. A ter que optar por uns em detrimento dos outros, prefiro sempre os inteligentes aos esforçados (o ideal é ter inteligentes-esforçados ou um esforçados-inteligentes). Das aquisições e com exceção do Nani, achei o Marcelo seguro e o gostei muito do que vi do Rafinha: excelente técnica, rapidez de movimento e inteligência a centrar (gostei de o ver ir à linha fazer um centro atrasado em vez de um balão para a molhada; pouco jogadores percebem que um centro não deixa de ser um passe para um colega de equipa).

Confirmou-se o que pensava: até o Peseiro consegue colocar uma equipa a jogar melhor do que o Jorge Jesus. Não sei se o Peseiro tem unhas para esta equipa e para algumas personalidades. Mas o rasto de devastação deixado pelo Jorge Jesus é enorme. As expetativas de bom futebol e de resultados que não se confirmaram. Os milhões e milhões gastos em contratações. Os camiões de pernetas como o Petrovic, o Doumbia, o Matheus Oliveira ou o Castaignos (ninguém se enganou na modalidade quando o contrataram?) que temos de despachar para parte incerta. Mas o pior, o pior mesmo foi a falta de aposta na formação e a destruição da matriz do modelo de organização do futebol do Sporting.

Como é que se espera atrair jovens jogadores para os juvenis, juniores e Equipa B se nenhum deles tem qualquer expetativa de jogar na equipa principal ou de valorização, estando condenados ao degredo numa qualquer equipa de terceira linha? Os jogadores da casa geram mais facilmente fatores de identificação dos adeptos. Por isso, considero as dispensas do Palhinha e do Francisco Geraldes dois erros de palmatória. Não é tanto pela qualidade dos jogadores que não sou competente para avaliar, é mais pela (falta de) qualidade de muitos que ficaram e por não se dar um sinal inequívoco de se querer reverter o ciclo de devastação do Jorge Jesus.