sábado, 30 de junho de 2018

O Mundial acabou: queríamos um Davy Crockett vs Buffalo Bill e ficámos com um Fernando Pessoa vs Homem Aranha

No Europeu, o Fernando Santos limitava-se a transmitir a mensagem do Senhor. A transmissão era simples direta e ninguém precisava de um teólogo para ficar a saber o que se ia passar. No Mundial, começou a falar como se fosse o Senhor ou o filho dele, o que é a mesma coisa. Começou a falar por parábolas. A parábola do neto não se percebeu. Não se percebeu se ele simplesmente estava com saudades do neto e o neto dele ou se a vinda dele era o anunciar de alguma coisa mais.

A intervenção do vídeo-árbitro no jogo contra o Irão e da Espanha contra Marrocos parecia uma coisa mas terrena, da FIFA, dos “vouchers”, dos emails. Mesmo assim, procurei ver mão divina a escrever direito por linhas tortas. A vitória da Argentina contra a Nigéria com um golo da Rojo a acabar o jogo parecia essa mão, a mesma mão que permitiu ao Maradona resgatar a honra perdida dos argentinos na guerra das Malvinas. Deus queria um Messi vs Ronaldo nos quartos-de-final. Queria Deus e queria o Mundo todo.

A meio da tarde, com a derrota da Argentina contra a França, percebi que de Deus não andava pela Rússia. A andar alguma coisa seria a FIFA ou agentes do ex-KGB. Não havia parábola, não havia nada. Só havia saudades que é o que nos distingue como povo. Estava conformado quando comecei a ver o jogo.

Começámos a perder, sobretudo a perder a sorte. A troca do Cédric pelo Ricardo Pereira deu azar. Cavani vira de flanco, Suárez domina a bola, vai para cima do Ricardo Pereira, sai pela direita e centra ao segundo poste para o Cavani com o peito, o ombro, o pescoço e o queixo a meter lá dentro. Não nos desmanchámos e continuámos a jogar como se nada fosse e tivéssemos até à eternidade para marcar um golo. Num livre, o Suárez ia-a metendo lá dentro outra vez, valendo-nos São Patrício. Procurei acreditar que pudesse haver mais intervenção divina à espreita.

Na segunda parte, continuámos na mesma como a lesma. Quem viu jogar o Sporting esta época sabe que aquele “tiki-taka” ou não leva a lado nenhum ou leva a um nervosos miudinho permanente até se chegar ao chuveirinho dos últimos minutos com a equipa toda dentro da área adversária à espera de um milagre. O milagre chegou mais cedo do que o previsto e sem necessidade de se entrar em modo de desespero. Canto do lado esquerdo, Raphael Guerreiro centra para a molhada, o Cristiano Ronaldo salta à bola, os dois centrais tentam abafá-lo, aparecendo o jovem Pepe nas costas a cabecear para o golo.

O divino que se tinha anunciado através de São Patrício parecia estar mais presente do que nunca. Engano meu. Biqueirada do Uruguai para a frente, o Pepe falha o corte de cabeça, a bola sobra para os jogadores do Uruguai que em três toques deixaram o Cavani isolado do lado direito para rematar com precisão sem hipóteses de defesa, ficando o Ricardo Pereira a meio caminho de fazer qualquer coisa e a acabar a marcar o avançado com os olhos. Quando se falham cortes de cabeça e os remates vão bem colocados, Deus deixa de se interessar pelo resultado final e o Mundo segue a sua desordem natural.

Reagimos como se esperava. Metemos o Quaresma na expetativa que a defesa do Uruguai ficasse com um olho no burro e outro no cigano. Mas não estando o Carlos Queiroz ficaram com os dois olhos no cigano (desculpa Quaresma!). Não restava outra alternativa que não fosse meter um ponta-de-lança. A custo, o Fernando Santos acabou por meter o André Silva. Era pouco, como sabíamos. Só criámos alguma confusão e aparência de perigo quando metemos o Pepe na área nos últimos minutos, sem que antes o Bernardo Silva bem acompanhado pelo William Carvalho e outros que por ali andavam fizessem o favor de queimar tempo com transportes de bola sem adversários pela frente e passes e mais passes até se lembrarem de meter a bola na área.

O Mundial acabou. O Mundo todo esperava um Messi vs Ronaldo. Vão ter um Cavani vs Giroud. Em vez de um Keynes vs Hayek, ou de um Mário Soares vs Álvaro Cunhal ou de um Davy Crockett vs Buffalo Bill, vão ter um César das Neves vs Mário Centeno, um António José Seguro vs Pedro Passos Coelho ou um Fernando Pessoa vs Homem Aranha. Quem é que quer assistir a uma coisa destas? Ninguém me tira da cabeça que isto está tudo feito para a vitória dos russos. É que nem Deus se atreve a meter-se com a FIFA, o Putin e os serviços secretos russos.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

A política de Bruno de Carvalho ou a política e o Bruno de Carvalho

Há dias, o Rui Tavares na sua crónica no Público afirmava que o tempo de exposição mediática do Bruno de Carvalho no último mês antes da Assembleia Geral tinha sido de cerca de mil horas. Não há acontecimento que se assemelhe, tufão, terramoto ou guerra. É um sinal inequívoco de uma doença qualquer que nos afeta coletivamente.

Para não ficar deprimido, tendo a procurar explicações mais (i)lógicas. A agenda mediática no ano passado foi dominada pela tragédia dos incêndios. O Governo teve de ser remodelado, para dar conveniente resposta política. O Eduardo Cabrita foi nomeado Ministro da Administração Interna. Quem o conhece, sabe bem que com ele nada se passa, nada acontece. Adormece-se a si próprios e adormece-nos tão bem que a própria realidade fica adormecida. Transporta tudo e todos para a "twilight zone".

A agenda mediática do Bruno de Carvalho tem tudo a ver com esta (não) opção política. É melhor para este efeito do que o próprio Campeonato do Mundo. Involuntariamente este ano não vai haver incêndios, pelo menos mediaticamente. Se houver, não tenham dúvidas que a Proteção Civil não só nos vai avisar de qualquer risco como também da próxima conferência de imprensa ou do último “post” do Bruno de Carvalho.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Para desenjoar

[Combinações có(s)micas]
No Europeu, um golo no último minuto da Islândia colocou-nos do lado (aparentemente) certo do sorteio. No Mundial, no último minuto, o Irão marcou e a Espanha também e há quem diga que ficámos (aparentemente) do lado errado do sorteio. Prognósticos só no fim dos jogos: hoje sabemos que ficámos do lado certo no Europeu, mas ainda não sabemos se ficámos do lado errado do Mundial. Com o Santos, estas combinações có(s)micas acontecem e não são por acaso.

[Google Sport Club]
“Na Luz fazem-se tantas buscas como no Google”, foi a mensagem que recebi antes de chegar a casa. Depois dos árbitros, vêm os clubes pequenos e as contratações de pernetas que passam pela Luz à velocidade correspondente. A vergonha passou a anedota, continuando a Federação Portuguesa de Futebol ou a Liga Portuguesa a não fazerem seja o for. Aproxima-se mais um campeonato em que ninguém de bom senso acredita no que se passar em campo. Estava-me a esquecer: a comunicação social continua a falar do Bruno de Carvalho e do Sporting.

[E o burro sou eu?!]
Faltando a uma reunião de quadros (?), Luís Filipe Vieira deu uma conferência de imprensa. A culpa das buscas não é do Benfica. As denúncias são do Porto; os juízes são os do Porto; a Polícia Judiciária é a do Porto. Não nasci no Porto, não vivo no Porto, mas trabalho no Porto há muitos anos e com todo o gosto. O insulto aos portistas e portuenses é uma vergonha para os benfiquistas (decentes) e devia ser repudiado pelos portugueses e seus representantes políticos (não sei se o Luís Filipe Vieira sabe mas há benfiquistas no Porto e muitos). Claro que se está em presença do discurso de um senador e não de um arruaceiro. Estava-me a esquecer outra vez: a comunicação social continua a falar do Bruno de Carvalho e do Sporting.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Um choque de civilizações onde não faltaram Aiatolá Queiroz e São Fernando

Este jogo contra o Irão envolvia uma ironia (do destino): os iranianos consideram Carlos Queiroz um herói. Só um povo com uma fortíssima camada civilizacional, como o persa, seria capaz de vislumbrar a cabeça de um génio para além do risco ao meio e do bigode (ou da falta dele quando dele nunca precisou tanto como agora). Nós, que somos uns arraçados, tê-lo-íamos visto como um “handicap”. O que nos iria ser dado assistir não seria assim a uma disputa de bola mas a um choque de civilizações (ou de uma civilização contra uma coisa por onde todos passaram e deixaram uma miscelânea que ainda hoje ninguém se entende, a não ser nas Assembleias Gerais do Sporting).

O Irão joga num 4x5x1 com grande capacidade de desdobramento ofensivo quando contra-ataca. Nós, no Europeu, jogámos num 4x5x1 também mas com desdobramento ofensivo baseado no princípio “deixa-os andar que vão acabar por cair de maduros” ou, em linguagem técnica da teoria do desporto de alta competição ensinada nas melhores universidades, “só vamos a eles quando os pudermos apanhar com as calças nas mãos”. Neste Mundial, a forma precipitada como o Cristiano Ronaldo tem marcado golos está a deitar por terra esta tática e o seu aprimoramento que dura há décadas. À partida, táticas idênticas interpretadas por dois povos com culturas diferentes e dois treinadores com a mesma escola da manha e que se distinguem pelo enformo capilar.

Entrámos bem, para variar. O trivelas estava presente e era só preciso passar-lhe a bola. A bola foi para a área uma e outra vez e uma e outra vez entre os centrais e o guarda-redes as abébias foram-se sucedendo. O João Mário falhou uma oportunidade de golo de baliza aberta, chegando dois iranianos a vias de facto. Não marcámos e, como de costume, demos o berro ao fim de vinte minutos. O Irão organizou-se afinal num 6x4, com um deles a andar atrás do William Carvalho para obrigar a bola a sair pelos centrais. Quando ganhavam a bola, corriam como se não houvesse amanhã cheios de fé no seu destino e no Raphael Guerreiro. Começava a temer-se o pior quando chegou o momento “Melhor Academia do Mundo”: o Quaresma vem à linha, deixa a bola no Adrien para a receber mais à frente e avançar com ela até enfiar uma trivela ao ângulo. Onde estejam, o Paulo Bento e o Lopetegui devem estar orgulhosos pelo trabalho (bem) feito. O monumento foi erigido para lhes agradecer e para acabar com as vuvuzelas (os iranianos podem estar avançados no seu plano nuclear como o Trump afirma, mas no chinfrim levam quase dez anos de atraso).

No início da segunda parte íamos deitando tudo a perder. O Cristiano Ronaldo arrancou um par de fintas e foi abalroado dentro da área. A custo e uns tantos “frames” depois, o árbitro marcou “penalty”. Temeu-se o pior. Frio como o gelo, o Cristiano Ronaldo partiu para a bola e permitiu a defesa do guarda-redes, mantendo a possibilidade de chegarmos ao empate. Armados de vuvuzelas outra vez e liderados pelo Aiatolá Queiroz, os iranianos não mais nos deixaram as fuças e as canelas em paz. Os portugueses tremiam e o árbitro e o vídeo-árbitro ainda mais. Cada lance passou a ser disputado “frame” a “frame”. Repetição para cá, repetição para lá e sai amarelo para o Cristiano Ronaldo. Mais repetições e “penalty” arrancado a ferros, com o árbitro e o vídeo-árbitro a marcá-lo por temerem não sair dali com vida. O Fernando Santos pediu cabeça e, obediente, o Rui Patrício não desviou a bola com o olhar como devia. Finalmente o empate que tanto esperávamos.

Não tenho dúvidas que o Queiroz vai dizer que a culpa não é dele e que é necessário limpar toda a m**** da Federação Iraniana de Futebol, sem antes deixar de receber a indeminização do costume. O Fernando foi um santo e até permitiu o abraço do Aiatolá Queiroz, que não teve ainda a delicadeza de lhe agradecer a possibilidade de dar as instruções ao João Moutinho que se tinha esquecido no Mundial da África do Sul. Entretanto, a Espanha empatou e passou para primeiro do grupo. Passámos em segundo. É pena que não possamos passar em terceiro. Se passássemos e a continuar assim o título estava no papo.

(Como está o ambiente no Sporting, parece-me a contratação do Aiatolá Queiroz muito mais adequada do que a do Mihajlović. Tem jeito para animar Assembleias Gerais e não estranha pessoas que andam com lenços a tapar a cara)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O voto

Amanhã, finalmente, realiza-se a Assembleia Geral para votação de proposta de destituição do Conselho Diretivo do Sporting.

Amanhã não se vota se gostamos ou não dos jogadores que rescindiram. Amanhã não se vota se gostamos mais dos “sportingados” ou dos “verdadeiros sportinguistas”. Amanhã não se vota se gostamos mais do “passado” ou do “presente”. Amanhã não se vota se gostamos ou não o Jaime Marta Soares. Amanhã não se vota se gostamos ou não das decisões dos tribunais. Amanhã não se vota se gostamos de uma “teoria” ou da sua contrária que procura explicar factos. Amanhã o voto não é um ato de gostar ou de não gostar, de amor ou de ódio.

Amanhã também não se vota se os cinco anos de mandato do Bruno de Carvalho foram positivos ou negativos: para isso os sócios votaram nas últimas eleições e mais recentemente em Assembleia Geral. Amanhã vota-se para que os sócios do Sporting possam decidir se consideram ou não responsável Bruno de Carvalho e o seu Conselho Diretivo pelos acontecimentos após essa Assembleia Geral que nos trouxeram até à necessidade de tomar esta decisão.

Quem votar contra, considera que é aceitável a situação que se vive e os atos ou a falta deles que a originaram, estando disponível para aceitar que tudo se possa repetir sem responsabilidade de quem dirige o clube.

Quem votar a favor, considera que não é aceitável a situação que se vive e os atos ou a falta deles que a originaram, não estando disponível para aceitar que tudo se possa repetir sem responsabilidade de quem dirige o clube.

Eu sou dos que não estou disposto a aceitar que tudo se possa repetir sem responsabilidade de quem dirige o clube, seja este o Conselho Diretivo ou outro qualquer. Não estou disposto aceitar no meu clube, no local onde trabalho, em minha casa, nas instituições que governam os portugueses. A exigência é sempre a mesma, de outra forma não estaria a respeitar o meu clube, o meu trabalho, a minha família ou a democracia e o estado de direito.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas


Bruno de Carvalho merece um juízo justo, despoluído do linchamento comunicacional a que foi sujeito nos últimos dois meses. Suficientemente justo, para se lhe reconhecer que a revogação do seu mandato não deve ser ditada, nem pelos sistemáticos insucessos desportivos da equipa de futebol 11, nem pelos históricos resultados das modalidades ditas amadoras. 

Inequivocamente justo, para que não se lhe atribuam culpas pelo bárbaro ataque que foi perpetrado contra a equipa de futebol e objetivamente justo, para lhe atribuir totais responsabilidades na deserção de quase metade da equipa e na destruição estúpida do trabalho de 5 anos, criando uma guerra pública irresponsável contra os jogadores, que abriu a porta ao oportunismo e ao desrespeito pelo Sporting Clube de Portugal.  

Completamente justo, para lhe atribuir exclusivas responsabilidades pela crise institucional em que o clube mergulhou, não tendo promovido a necessária clarificação e pacificação com a realização urgente de eleições. Claramente justo, para não omitir que, aberrantemente, patrocinou a criação de estruturas contrárias aos Estatutos do Sporting Clube de Portugal, como a Comissão Transitória da senhora Judas, que por sua vez queria ilegalmente realizar uma Assembleia Geral apressada e inopinada, para promover alterações estatutárias espúrias.

Totalmente justo, para não haver dúvidas que o presidente do Conselho Diretivo colocou Sportinguistas contra Sportinguistas, Sócios contra os Sócios, promovendo uma brutal fratura entre os adeptos, suportada na ideia peregrina que de um lado temos 6 Sportinguistas de uma santidade imaculada e do outro, uma corja de oportunista, golpistas e conspiradores, que vai da quase totalidade dos membros dos órgãos sociais que integraram as suas listas aos jogadores, abrangendo todos aqueles que dele discordam.

Inapelavelmente justo, para reconhecer que nos enganámos na sua capacidade em constituir uma equipa diretiva séria e competente, porque afinal, nas suas palavras, fez-se rodear de “ratos” e de “cobardes”. Genuinamente justo, para reconhecer que quem convidou o Comendador Jaime Marta Soares a integrar a Candidatura Sporting no Rumo Certo - Bruno de Carvalho, como Presidente da Mesa da Assembleia Geral, foi Bruno de Carvalho, não fomos nós.

O juízo justo de quem criou esta guerra fratricida, que nos envergonha e nos divide, que nos enfraquece e desprestigia, e da qual também Bruno de Carvalho é autofagicamente vitima ao pulverizar o reconhecimento que os Sportinguistas lhe tinham, cabe somente a cada um dos sócios. De preferência, mostrando desta vez, na forma e no resultado, que aquilo de “sermos diferentes” é mesmo verdade e que Bas Dost tinha razão, quando não confundiu a delinquência com os verdadeiros adeptos do Sporting.

Minha cabeça talvez faça as pazes assim.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Meu Deus, Nossa Senhora!

Finalmente um jogo a sério. O jogo contra a Espanha não conta. Era para perder, com honra e glória, como de costume. Empatámos. Mas, sem uma vitória hoje, esse empate de pouco ou nada servia. Sabemos bem o que nos acontece quando temos a responsabilidade de ganhar e, em particular, contra uma equipa teoricamente mais fraca. As contas são para fazer até ao último segundo e quando assim não acontece é porque a campanha nos vai correr mal.

Mal entraram os jogadores em campo, procurei os primeiros sinais de que tudo iria correr bem. Procurei perceber se o Cristiano Ronaldo estava em boa forma. As primeiras imagens desfizeram todas as dúvidas: continuavam as refeições com alimentos integrais e ricos em fibra, fruta e vegetais, bem como proteínas magras. Os outros não pareciam estar a seguir a mesma dieta, especialmente o Moutinho a quem lhe falta fibra, integral ou não, e ingerir umas litradas de bebidas isotónica que o leve a andar mais depressa. Em contrapartida os marroquinos pareciam estar com a dieta em dia.

Começámos a ganhar. Cinco por cento de uma oportunidade de golo e o Cristiano Ronaldo não perdoou. Fiquei preocupado. A impaciência do Cristiano Ronaldo ainda nos ia custar cara, pensei de imediato. É preciso aprender com a história. Com o Fernando Santos não teríamos ganhado Alcácer Quibir mas também não teríamos perdido.

A minha preocupação tinha toda a razão de ser como se viu nos minutos seguintes. O lado esquerdo da nossa defesa e o nosso meio-campo mais pareciam o norte de África. No meio do sufoco, o Cristiano Ronaldo recebeu uma bola no peito e de primeira, com o pé esquerdo, isolou o Guedes. Pela cabeça do Guedes passaram todos os capítulos de um livro do Carlos Daniel. Pensou em chutar com o pé esquerdo e acabou por rematar com o direito, pensou em rematar em jeito e acabou a rematar sem jeito, pensou em fazer um chapéu e acabou a rematar a meia altura. Uma botija de gás da Galp não teria feito pior, mesmo sem a senhora simpática a carregá-la. Foi com alívio que chegámos ao intervalo a ganhar por um a zero, sem antes demonstrarmos que temos uma defesa imbatível, especialmente uma massa de ar quente estacionada na área que gera efeitos de advecção nas bolas cabeceadas pelos marroquinos.

Quando começou a segunda parte mais parecia que não tinha havido intervalo. Voltou tudo  ao mesmo, mas em pior, se tal é possível. O Guedes rematou e espirrou-lhe o taco, permitindo uma assistência do Fernando Santos para o Cristiano Ronaldo falhar. O meio-campo e o lado esquerdo operaram um verdadeiro milagre. Apesar de não existirem, ainda arranjaram maneira de se eclipsar. Os marroquinos entraram com os vinte e três jogadores e o Fernando Santos não quis equilibrar o jogo, metendo todos os que tinha no banco de uma vez. Foi valendo o Cristiano Ronaldo das balizas com as mãos, os pés e o olhar (sobretudo com o olhar), enquanto eu e o Fernando Santos continuávamos a rezar: “Consoladora de todos os aflitos, Maria Santíssima, mãe amorosíssima, contemplai piedosamente as pobres almas aflitas!”. Mas a resposta a esta súplica tardava, nem no “penalty” sobre o Cristiano Ronaldo.

Acabado do jogo, rezei uns tantos Pais-Nossos e umas tantas Avés-Marias. Sem ter a certeza sobre quem tinha operado este milagre e numa perspetiva ecuménica, fi-lo virado para Meca. Se é preciso sofrer assim na Terra para se ganhar o Reino dos Céus, que assim seja. Ámen.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Assistir a dois Campeonatos do Mundo

Temos a felicidade de assistir a dois campeonatos do Mundo ao mesmo tempo: o da melhor seleção do Mundo e do melhor jogador do Mundo. Estamos acompanhados por muito poucos: pelos argentinos, por causa do Messi, pelos brasileiros, por causa do Neymar, e pelos egípcios, por causa do Salah. Os outros só têm oportunidade de assistir a um campeonato do Mundo.

 O futebol começa a ficar parecido com o ciclismo. Quem ganha a Volta à França é o ciclista que fica em primeiro e não a equipa no seu conjunto. A vitória do primeiro é apropriada pela equipa, como se a equipa tivesse ganhado, o que nem sempre acontece. Admite-se que ninguém ganha sozinho e que o desempenho individual e coletivo estão intimamente relacionados. Sem uns bons aguadeiros ninguém ganha a Volta à França.

Todos desejamos que a seleção nacional ganhe o Campeonato do Mundo e que o Cristiano Ronaldo venha a ser considerado o melhor jogador do Mundo. A segunda vitória não implica a primeira. A primeira implica a segunda, isto é, a seleção só pode ganhar se o Cristiano Ronaldo fizer de tal forma a diferença que não exista qualquer possibilidade de não ganhar a Bola de Ouro. Para não termos (des)ilusões, deve-se desejar a segunda vitória, dado que é muito mais provável que a primeira. Ao mesmo tempo, vai-se rezando-se para que a segunda vitória seja de tal forma esmagadora para se transformar em condição necessária e suficiente para a primeira.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O melhor futebol do Mundo

Na primeira parte, Portugal jogou contra o Benfica. Ao princípio não reparei. A cor branca das camisolas enganou-me. Barreiras mais à ferente ou mais atrás conforme a equipa. Na dúvida, lançamentos de linha lateral sempre para o mesmo lado. Livres perigosos que não são. Cereja em cima do bolo: golo irregular validado pelo árbitro e pelo vídeo-árbitro.No entanto, pela primeira vez, os comentadores da RTP denunciaram a situação e vociferaram contra o árbitro e contra o Benfica. Uma novidade.

 Mas Portugal é Portugal, não é o Tondela ou o Setúbal. Não precisa que lhe emprestem jogadores do Benfica. São outras as equipas que lhe emprestam os jogadores. E Portugal também é Ronaldo e isso é tudo ou quase tudo, sobretudo quando tudo parece correr mal. O dois a um surge do puro e simples acaso concluído com um monumental frango.

Na segunda parte, entrou a Espanha e saiu o Benfica e o divino Santo(s). Notaram-se as saídas e a entrada. De repente, estávamos a perder três a dois. A um passo da goleada, entraram o João Mário e o Quaresma. A Espanha jogava ao meiinho e parecia que não queria mais. Entediaram-se e entediaram-nos com o “tiki-taka” do costume. Aparentemente, é a esta seca inventada pelo Barcelona e pelo Guardiola que se chama o melhor futebol do Mundo. O melhor futebol do Mundo não é este. O melhor futebol do Mundo joga-se com os olhos na baliza. O melhor futebol do Mundo tem um e um só nome: Cristiano Ronaldo; e foi com ele e por causa dele que Portugal obteve o resultado por que o Fernando Santos tanto ansiava: o empate.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A solução

Esta crise no Sporting fez-me recordar uma troca azeda de palavras com o presidente da instituição onde trabalhava.

Num almoço de trabalho com pessoas de fora, às páginas tantas, alguém referiu que o melhor seria substituir o povo português por outro. Para acabar com a estupidez da conversa, respondi ironicamente que a ideia não era nova e que o Brecht tinha avançado com essa solução há muito. O presidente não gostou muito que tivesse mandado o alarve aquela parte (um alarve sempre foi um alarve, mas há quem considere que um alarve pode ser importante ao mesmo tempo) e resolveu armar-se em culto e corrigir-me, dizendo que a afirmação tinha sido do Oscar Wilde (a afirmação do Wilde tem alguma similitude com a de Brecht mas o contexto e a referência ao povo são absolutamente distintas).

Não dei troco ao disparate, dado que nem um nem outro mereciam. Chegado ao trabalho, efetuei uma informação a esse presidente, explicando-lhe que a sua posição hierárquica não o habilitava a corrigir as minhas referências culturais sem nenhuma razão. Este episódio infeliz teve dois efeitos: o dito presidente passou a olhar-me de lado e nunca mais me esqueci do poema de Bertolt Brecht.

Este poema, que partilho, muito se adequa à atual situação do Sporting. Se não se pode demitir o Conselho Diretivo, então que se demitam os sportinguistas e os substituam por outros.

A solução

Após a insurreição de 17 de Junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir panfletos na Alameda Estaline
Em que se lia que, por culpa sua,
O povo perdeu a confiança do governo
E só à custa de esforços redobrados
Poderá recuperá-la. Mas não seria
Mais simples para o governo
Dissolver o povo
E eleger outro?

terça-feira, 12 de junho de 2018

Ditadores, Traidores e Desertores

Tem sido difícil escrever sobre o Sporting, seja por falta de tempo, seja por falta de vontade. Ao longo dos últimos meses temos assistido ao processo de transformação de Bruno de Carvalho de um líder quase consensual, num ditador com tiques autoritários, culto de personalidade e manifesta incapacidade de lidar com tudo e todos que não alinhem com a sua 'visão' do mundo.

Infelizmente este ditador levou, quer se queira quer não, a que se criasse o ambiente propício a que vários extremismos se instalassem no clube. Num desses extremos um grupo de adeptos decidiu trair o clube, o desporto e o país, perpetrando aquilo que (de acordo com o próprio Ministério Público) foi um ato de terrorismo contra o próprio clube.

Se não bastava ao já muito famigerado povo Sportinguista ser vítima de um louco ditador e da traição dos seus mais radicais, tem agora ainda de lidar com a deserção em massa de algumas das suas figuras chave. Sinceramente ainda me custa a acreditar que profissionais como Rui Patrício, Gelson Martins ou William Carvalho se estejam a aproveitar dum momento histórico de fraqueza do clube onde estiveram vários anos, que os formou e idolatrou, para ir ganhar uns trocos extra nalgum lado. Mas é o mundo em que vivemos.

E no mundo em que vivemos só falta mesmo a entrada de um inimigo em cena para que se continue o ambiente de guerra em vez de estarmos focados no essencial: nós, Sportinguistas, em livrar-nos do ditador; todos, em garantir as condições para que os atos de violência e terrorismo nunca mais se repitam.

Its the end of the world as we know it

#zero cinismo
Permanecerei, enquanto a realidade o permita, em estado de negação. Quero ainda acreditar que até final de agosto a situação se reverta e ninguém acabe por sair. Admito que haja muitas concepções de sportinguismo. Não pretendo sobrepor a minha. Mas o meu sportinguismo é feito de ídolos. De Lopes a Manuel Fernandes, de Livramento a Moniz Pereira, de Theriaga a Carlos Lisboa. De Girão a Patrício. De Miguel Garcia a Andorinho, de Tiui a Naíde, de Yorda a Futre. De Dost a Balakov, de Ruesga a Divanei. Foi com eles que celebrei vitórias e que sofri derrotas. Porque nós, com eles, somos o Sporting. E, é por isso que para mim #zeroidolos é #zerosporting. 

#zero vivos
É muito pouco relevante discutir a justa causa das rescisões quando subitamente rescindem seis jogadores fundamentais e se admite que possam ser nove ou dez. Pela simples razão que o dano está consumado. Indemnização alguma, no futuro, evitará o dano sofrido. Dano financeiro, dano reputacional, dano desportivo, dano simbólico, dano afectivo. Não devemos esconder que estamos perante um desastre brutal, nunca visto no futebol português e apenas com paralelo nos desastres aéreos de Manchester, Torino ou Chapecoense. Só que desses desastres saíram clubes unidos, e deste suicídio presidencial não sai nada, nem ninguém.

#zero verdade
Não, não começou com uma entrevista ao DN de que nem nos lembramos. Não, um hara-kiri não é uma golpada. Não, os superiores interesses do Sporting não estão a ser defendidos. Não, os jogadores não são uns traidores. Não, não é legal a comissão transitória da Mesa da Assembleia Geral do Sporting. Não, o Presidente da Mesa da Assembleia Geral, por muito incompetente que seja, não perdeu qualquer legitimidade estatutária. Não, o Tribunal não legitimou Marta Soares. Não, a pseudo-assembleia de dia 17 não é uma Assembleia Geral. Não, a imprensa não é isenta relativamente ao Sporting, nem relativamente a Bruno de Carvalho. Não, não somos todos locos, conluiados e orquestrados.  Não, não é Bruno de Carvalho ou o caos (até porque agora são sinónimos). Não, não queremos croquetes, até porque já os comemos todos. Não, não vale tudo. Não, não é amanhã, o que queremos é eleições, já!

#zero pesadelos
Dá para acordar e ser 13 de maio e mais logo irmos ganhar ao Marítimo?

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Boas e más companhias

O futebol tem um lado negro. Melhor seria dizer que tem vários lados negros. Também tem o lado certo. Há quem afirme em que lado quer estar e as companhias que não quer ter. Quero estar na companhia da Tasca do Cherba.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A que horas começa a guerra?


Sempre disse (por aqui variadíssimas vezes) que ser sportinguista é meio caminho andado para um pacemaker. A esse (meio) caminho estamos habituados (não confundir com resignados). Falhar, falhar sempre, falhar cada vez melhor, tornou-se não apenas um hábito mas uma maneira de ser que ecoava solenemente no estádio durante a entrada da equipa, introduzindo-se sorrateiramente no nosso ADN. Diz que as modalidades, por vezes, não sentiam esse formigueiro, mas bem sabemos que a equipa de futebol principal é esse meio caminho andado de todos nós.

Ultimamente tentei tudo. Primeiro o costume: doses maciças de humor; longos passeios de ironia; massagens de boa disposição; especializei-me em introduzir novas e interessantes temáticas nas conversas com adeptos dos nossos rivais. Dei por mim cabisbaixo, incrédulo, embaraçado. Dei por mim de comando na mão, passagens aqui e ali, a mesmo ruminação de sempre, comentadores, protocandidatos, candidatos putativos, mãos estendidas, colunas verticais dobradas, jornalistas à paisana. Não aguentei, confesso. Sou um tipo sensível e com alguma réstia de dignidade (já nem digo bom gosto). Tentei dormir. Decidi escrever algo. Mas o quê?

Pode cair o carmo, a trindade e a torre dos clérigos que não é a mesma coisa. Com o Sporting as hienas encarniçam-se, convivem sorrateiramente com os leões, unem-se aos abutres. Aguardam o costume: ficarem apenas dois a repartir o bolo. Não sentem já as condescendentes pancadinhas nas costas? Os sorrisos compreensivos, paternalistas? Antecedem a estocada final.

Começo a achar que não precisamos de inimigos. Com amigos assim, fazemos bem o trabalho entre portas. Enquanto ainda tivermos portas para abrir e fechar. Quando nem o meio caminho andado chega para um pacemaker, temos que inovar. Somos bons a inovar, quase tão bons como a falhar. Deixem-nos falhar. Deixem-nos falhar cada vez melhor. Mas deixem ser os sportinguistas a decidirem o caminho. É meio caminho andado, vão ver.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Now you don't seem so proud


Bruno killed the radio star
Sabe, Fernando, sou de um tempo em que os jornalistas também eram ídolos. Vi os golos do Jordão na sua voz. Como ainda oiço o Jorge a gritar “eu te amo, Sporting”, na noite de Alkmaar. Digo-lhe só que tudo isto me entristece. Muito.
 

Conspirações de estúpidos
Duas fações em confronto numa guerra jurídico-intestinal. Uma das partes quer-nos convencer da legalidade de uma comissão transitória qualquer, com Elsa Judas à cabeça. A outra, quer-nos fazer crer que é isenta, com Henrique Monteiro a coordenar. Risível é o mínimo.


Les uns et le autre
Um jornalista de asperger. O filho do Neves. O jornalinho de escola. Gagueja incapaz de fazer a pergunta que lhe mandaram. O jornaleco escroque-patético. “Raphinha vai rescindir”. O espelho disto tudo. Bruno. Tudo isto enquanto se almoça uma sopa. De pé. Vitimas da fome (de bola).


Trash share
Vai disto 60 dias. Do post à providência. Pouca terra e muito share. Sinal que somos muitos. Sinal que o polvo é quem mais ordena. Com poeira, muita poeira. Sinal também que há espaço para estratégia. Que Saraivada não é estratégia alguma. Mas só espaço não chega, é preciso quem tenha a inteligência. Para urdir. Leva tempo, mas é possível.


«Então Marta Soares desviou dinheiro dos bombeiros?»
Então não foste tu quem o escolheu, Bruno?


Bruno
Já chega. Sei que andas aí. Escuta o doutor Barroso. Demite-te, porra!


A pergunta que ninguém fez
E a puta da gala? É quando?

terça-feira, 5 de junho de 2018

A história é escrita pelos vencedores

A época 2014/2015 do Sporting ficou marcada pelas (más) relações entre Bruno de Carvalho e Marco Silva. A meio dessa época, o Marco Silva teve apontada a porta da rua. Os adeptos seguraram-no, mas o destino estava traçado custasse o que custasse. Depois da épica vitória na Taça de Portugal, o seu despedimento implicava que Bruno de Carvalho subisse muito a parada, dado que os adeptos não iriam aceitar qualquer outro para o substituir. A aposta em Jorge Jesus foi a melhor possível nesse contexto.

A aposta era de risco elevado. Bruno de Carvalho colocou o seu destino nas mãos de Jorge Jesus e Jorge Jesus colocou o seu destino nas mãos de Bruno de Carvalho. Passaram a ser dois homens com um só destino: ou ganhavam ou afundavam-se os dois. A época 2015/2016 é daquelas que vai ficar para a história do futebol português, confirmem-se (ou não) as suspeitas que estão a ser investigadas. A melhor equipa do campeonato, o Sporting, bateu todos os recordes de pontuação e mesmo assim perdeu. O Benfica, com um treinador medíocre a jogar um futebol medíocre, pulverizou todos os recordes e ganhou.

Bruno de Carvalho e Jorge Jesus acreditaram que tendo estado a um pelinho de ganhar naquela época, ganhariam nas épocas seguintes. Apesar de todas as contratações, não mais o Sporting jogou futebol que se visse. Duas épocas e dois terceiros lugares depois, Jorge Jesus e Bruno de Carvalho têm o mesmo destino: sair pela porta dos fundos do futebol português.

Não há história contrafactual, mas a dúvida ficará para sempre. E se o Sporting tem ganhado o campeonato de 2015/2016? Bruno de Carvalho e Jorge Jesus propuseram-se derrotar o Benfica em toda a linha, mas o Benfica foi mais forte que ambos. Também ficou o aviso que o Benfica não paga a traidores: Jorge Jesus acabou no mesmo lugar para onde o queriam recambiar no final da época 2014/2015. Ninguém tem dúvidas que tudo seria diferente para um e para o outro se a época de 2015/2016 fosse diferente e não houvesse jogos como este. A história é sempre escrita pelos vencedores. Os vencedores, por o serem, têm sempre razão. Fica o aviso para os senhores que se seguem. O futebol português não é para meninos e para bem-intencionados ou amadores.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

É simples, não é?!

A Mesa da Assembleia Geral tem a mesma legitimidade do Conselho Diretivo: o voto dos associados. Há quem não goste da Mesa da Assembleia Geral mas não tem outro remédio se não aceitá-la com a constituição que foi sufragada. Há quem não goste do Conselho Diretivo mas não tem outro remédio se não aceitá-lo com a constituição que foi sufragada também.

Embora dispondo de legitimidades equivalentes, têm atribuições e competências diversas, no contexto da “corporate governance” do clube, e constituem dois órgãos autónomos: nem a Assembleia Geral se substitui ao Conselho Diretivo nem o Conselho Diretivo se substitui à Mesa da Assembleia Geral. A Assembleia Geral serve para o Conselho Diretivo prestar contas aos associados. Quem procede ao seu agendamento é a Mesa da Assembleia Geral, bem como ao estabelecimento da respetiva ordem de trabalhos.

Está marcada legitimamente uma Assembleia Geral para o próximo dia 23 com uma ordem de trabalhos legítima, onde consta proposta de destituição do Conselho Diretivo. Os sócios vão ter a palavra. Os que considerarem que não há razões para a destituição votam contra, os que considerarem que há razões votam a favor. Quem ganhar, ganhou, quem perder, perdeu, e não se volta a falar mais nisso. Todas as alternativas não passam de fantasias e servem para se arrastar a atual situação sem fim à vista e com consequências imprevisíveis para o clube.

É simples, não é?!

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Oh Captain, my Captain


Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prémio que
procurávamos está ganho,
O porto está próximo, ouço os sinos,
toda a gente está exultante,
Enquanto segue com os olhos a firme quilha, o ameaçador e
temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.

Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –
para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objetivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto


Walt Withman

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Não é sim

Não ganhámos à Tunísia. Espera-se que não se ganhem os jogos que se seguem, a brincar e, depois, a sério. Se não ganharmos, ganhamos.

sábado, 26 de maio de 2018

Private jokes


Esperemos que a legalização da eutanásia não passe na Assembleia da República. Só assim haverá hipóteses de o Sporting se salvar.

ou...

O Sporting é uma casa a arder. O que vale é que está lá o Marta Soares.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Estamos como estamos e não queríamos estar

Há um estudo de caso que costumo de desenvolver nas aulas que é elucidativo da situação atual do Presidente do Sporting. Adiantando, neste estudo de caso tem-se um alto quadro de uma instituição financeira que dirige um gabinete de avaliação de risco. Encontrando-se uma das empresas financiadas em dificuldades e operando-se uma reestruturação, esse alto quadro é convidado para integrar o seu Conselho de Administração enquanto representante da instituição financeira. A história transforma-se num vale de lágrimas até ele se demitir e voltar para o seu antigo lugar.

Quando se pergunta aos alunos se se tratou de uma escolha bem-sucedida, obtemos as respostas mais complexas e intrincadas, quando é tudo muito simples: se tivesse sido uma boa escolha ainda hoje lá trabalhava e não se tinha demitido passado pouco tempo. Este exemplo serve para explicar aos alunos que em primeiro lugar se medem os resultados das decisões. Se o resultado não é bom, então a decisão não foi boa. Só depois é que se procura perceber as razões que levaram a que a decisão não fosse bem-sucedida. Normalmente, os alunos baralham a análise pura e simples dos resultados com a explicação para não terem sido os desejados.

No Sporting, a situação é similar. O resultado não é o desejado. A decisão dos sócios de eleger a atual Direção não foi bem-sucedida, dado que não foi para estarmos como estamos que coletivamente se tomou essa decisão. É verdade que existem razões para estarmos como estamos suportadas em teorias mais ou menos sustentadas em evidências, permitindo um narrativa convincente para uns e pouco ou nada convincente para outros. Mas a única coisa que podemos avaliar objetivamente é que estamos como estamos e não queríamos estar.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

No rasto do furacão


Vergonha
Quando daquela vez viste um avião cair com uma outra equipa lá na América do Sul, a culpa foi do piloto. Mas quando caiu a tua equipa a culpa foi apenas tua. Mesmo que não fosse, foi isso que sentiste. E mesmo que não tenhas sentido, foi isso que te quiseram fazer sentir. Só não sei se como castigo de opções passadas, se para te imporem opções futuras.

Vazio
Quando o da assembleia em vez de ser solidário falar em jogos à porta fechada, quando o primeiro em vez de ser solidário anunciar algo que não tem, uma Autoridade, e o presidente solidário não tiver uma só palavra para contigo, é porque definitivamente, como diria o Manuel António Pina, a tua pátria é mesmo o teu clube.

Profecia
Nos tempos da dinastia croquete, explicava assim uma assembleia geral: “se vais para as primeiras filas estão uns gajos de gravata que te vão gamar a carteira; se ficas mais para trás estão uns tipos que te dão com uma barra de ferro nas costas”. Aconteceram as duas. O pior de dois mundos.

Moche ao gordo
Sete dias tem o bullying e desengane-se quem acha que populismo é lepra que grassa apenas nas lideranças. É também uma certa forma de fazer mentirismo: perguntas que já contêm respostas; microfones só para certas bocas; mentiras muitas vezes repetidas; verdades sistematicamente esquecidas; tudo fora do seu contexto; 50 valem mais de três milhões e meio; um grunho de óculos a espumar a meio da escada conta mais na TV que todos os outros a aplaudir; a canalhice dos sinónimos escroques; uma emboscada trituradora; um diluvio de rescisões; testes psicotécnicos em Nápoles; Benfica de olho no cu da vaca. E nisto, contra a desonestidade em forma de microfone, temos um canal a ensinar como se faz caldeirada.

Lamechice
Percebe-se que estejamos senilizados. É a demografia. Mas isso não explica a paranoia “do vai acabar”. Também não é preciso estar sempre a reclamar que tal não vai acontecer. As evidencias não necessitam de ser afirmadas.  

Não há futuro sem passado
Em 50 anos houve três presidentes com projeto, com impacto e com resultados: João Rocha, José Roquete e Bruno de Carvalho. Qualquer um deles com erros de palmatória. O que havia antes explica o seu sucesso e o que veio depois nunca foi melhor. Só o primeiro é que saiu pelo seu pé. Ainda ninguém concorda com isto, mas lá no futuro poderei dizer, lembram-se?

 O passado não tem futuro
A dinastia croquete existiu com a complacência bovina dos associados. Mas no presente, toda e qualquer criatura relacionada, próxima ou semelhante arrisca-se a levar uma marrada. E não se espere que um guarda-redes de futsal saiba fazer uma pega de caras.

O presente também não
“A gente não percebe o que disse sem querer, e o que deixou pra depois. Mas o importante é perceber que a nossa vida em comum depende só e unicamente de nós dois”. Ou se demite você ou o demitimos nós. Até lá pode continuar a contratar velhas glórias, seja porque a máquina precisa, ou porque nos quer fazer parecer que sendo o mesmo, já é outro.

Bas Dost
Lembra-te de agradecer todos os dias a quem não te confundiu com a escória. Lembra-te de agradecer ao único que percebeu que existiam “verdadeiros adeptos do Sporting”. Lembra-te de agradecer ao único que não te meteu no saco da canalhada cobarde. Lembra-te da voz que amainou a vergonha. Lembra-te todos os dias da infâmia que fizeram ao Sporting e da ignomínia que fizeram a este homem. Há coisas que não têm perdão.




domingo, 20 de maio de 2018

Nem crucificado nem ressuscitado: é assim a vida de (Jorge) Jesus

Nunca se pode dizer que se bateu no fundo. Há sempre mais fundo para além do fundo e quando se olha fixamente para o abismo o abismo olha para nós. O abismo tinha os olhos fixados em nós desde o primeiro minuto. Não desviámos o olhar. Voltámos a embrulhar-nos nas táticas maradas do Jorge Jesus com passes para trás e para a frente sem grande objetividade e menor contundência.

Face ao Aves, este monstro sagrado da futebolândia nacional, todos os cuidados eram poucos. Jogámos com dois trincos: o Battaglia e o William Carvalho, com o segundo um pouco mais avançado do que o primeiro e sempre na dúvida sobre quem fica e quem vai, quem recua e quem avança. As dúvidas eram tantas que no lance do primeiro golo do Aves não estava nenhum no seu lugar. Sofrido o primeiro golo, o William Carvalho recuou, o Bruno Fernandes também e não se percebeu muito bem o que andava a fazer o Battaglia em campo. Não seria grave se não percebêssemos. O que é grave é que o Battaglia também não entendeu. No ataque, o Bas Dost ainda ficou mais isolado. A precisar de marcar um golo, resolvemos dar descanso à defesa do Aves até ao final da primeira parte.

Na segunda parte, saiu o Williiam Carvalho e entrou o Montero. Deixou de haver menos dúvidas posicionais, mas continuámos sem saber muito bem o que fazer para marcar um golo. Esperava-se um massacre mas, para além das duas vezes que o Gelson Martins acertou no Quim na primeira parte, nem uma oportunidade para amostra se criou até se levar o segundo golo. A equipa queria acordar mas não conseguia. Entretanto, o Misic tinha entrado para o lugar do Coentrão e passou jogar a extremo esquerdo, uma novidade absoluta. Rapidamente se percebeu que também não sabia muito bem o que fazer em campo, passando a andar por um lado e pelo outro, tal deve ter sido a “overdose” de orientações que o Jorge Jesus lhe deve ter dado. O Bas Dost conseguiu falhar um golo de baliza aberta que, temo bem, até o Bryan Ruiz teria marcado.

Só quando o Battaglia e o Acuña quiseram apertar o papo a um avançado do Aves é que a equipa acordou. A equipa acordou sozinha em campo, sem orientação, sem ideias e completamente desesperada. Os centrais foram para a área do adversário e passaram-se a mandar bolas atrás de bolas para a área, até que num ressalto o Montero marcou golo. O vendaval de bolas para a área intensificou-se com o Aves a resistir como podia. Não chegou. Os jogadores deram mais em dez minutos do que nos restantes oitenta. O Aves sofreu mais nesses dez minutos do que nos restantes oitenta minutos também.

Este jogo foi o espelho da época. Jogadores amarrados a táticas e mais preocupados em as cumprir do que em ganhar jogos. Quatro e cinco jogadores na construção de jogo para os quais bastam dois adversários para a condicionar. Avançados isolados na frente à espera de companhia e que a bola lhes chegue. Incapacidade para dispor de um plano b e de um plano c que permita romper o cerco que criamos a nós próprios. Manutenção do pastelão tático com trocas permanentes de posição entre os médios até nenhum deles perceber bem o que está a fazer em campo. Ausência de bolas a explorar a profundidade e de saídas de bola rápidas pelas laterais. No final, Jesus costuma acabar crucificado. Não me parece que seja o que vai acontecer. Apesar dos milhões e milhões de euros gastos, fizemos duas épocas consecutivas miseráveis. Não satisfeito, o Bruno de Carvalho arranjou-lhe o álibi perfeito.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O último a sair que feche a porta

(...)
Aproveito apenas para friamente assinalar que, esta época, o Sporting teve uma dose de coerência que em tudo se assemelha a uma política. A equipa, de forma coerente, não jogou nada. Jorge Jesus, de forma coerente, foi mantendo a sua ideia. Esta coerência apenas foi ligeiramente alterada após o jogo com o Atlético (por razões que todos sabemos: a posta do Presidente e o desgaste da equipa com lesões, castigos, cansaço). E, por fim, o Presidente (e toda a sua equipa se é que existe uma equipa) foi coerente no seu caminho para o abismo. Até ontem ainda havia a possibilidade de recuarmos. Hoje a queda livre não permite pensar sequer em milagres.

E teria bastado alguma imprevisibilidade, alguma (porque não?) incoerência, tanto na equipa como no treinador para chegarmos a outro porto. Quanto ao Presidente, não sei se já se inventou uma palavra para o sucedido. Talvez suicídio. Mas não quero ser coerente.

(posta originalmente publicada aqui)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Para o que aconteceu ontem nunca, mas nunca mais se repita!

Ter um clube, ser de um clube não se explica. Nem sequer é razoável. Seria muito mais conveniente que não se tivesse e não se fosse. Não estaríamos permanentemente a sair da festa da comunhão do sobrinho para ver se empatámos contra o Moreirense ou se até estamos a ganhar, suportando o olhar reprovador da mulher e do resto da família. Não ficaríamos de neura toda a semana porque empatámos ou perdemos. Não faríamos papéis ridículos no café da esquina depois de um golo perante a incredulidade dos vizinhos que nos consideram pessoas normais e educadas.

Ser do Sporting é racionalmente uma inconveniência, mas não consigo deixar de ser. Sou capaz de contar a minha vida toda a partir das datas e dos factos que fazem a história do Sporting do que utilizando qualquer outra cronologia mesmo envolvendo aqueles que mais amo. Entranhou-se em mim e na minha vida de tal maneira que não consigo desfazer-me desta pertença.

Ontem, ao chegar a casa e ver as imagens na televisão, tive vergonha desta minha pertença. Daria tudo para me ver livre dela. Daria tudo para não me sentir responsável também, mas sou responsável. Não sei se sou ou pelo menos tento-me convencer que não sou, que os responsável são os outros, mas sinto-me responsável. Não consigo deixar de pensar que esta pertença irracional, por muito pouca expressão que possa ter, juntamente com a dos outros sportinguistas é que conduziu à violência e a esta desgraça.

Mete-me alguma confusão a desvalorização da violência e a relativização da desgraça. É um caso de polícia? É sim senhor, mas também deve merecer consequências no plano desportivo. Não me parece que se possa jogar a final da Taça de Portugal e continuar a pensar que tudo continua como antes. Se ganharmos, festejamos? Como se nada tivesse acontecido? Num país a sério, seria cancelada a final e não seria atribuído o título esta época. Não sendo um país a sério, se fôssemos um clube a sério, não deveríamos jogar a final da Taça de Portugal: glória ao Aves! É que disto tudo importa que não se perca a memória, para que enquanto a vergonha perdurar, e espero que perdure para sempre, o que aconteceu ontem nunca, mas nunca mais se repita.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O fim dos irmãos metralha (II)

Primeiro, em 2 de julho de 2015 e, depois, em 22 de julho de 2017, dizia isto:

Cada vez gosto mais de filmes de pancadaria. A saga dos Mercenários é excelente. Num só filme temos o Sylvester Stallone, o Arnold Schwarzenegger, o Chuck Norris e por aí fora. Não vai ser preciso ver o terceiro filme da série. Temo-los a todos na versão portuguesa no Sporting. Num só clube contamos com o Bruno de Carvalho, o Jorge Jesus e o Octávio Machado. Só falta o Maxi Pereira para termos o elenco completo.

Nos filmes, isto acaba bem. No Sporting, vamos ver. É que já nos tínhamos visto livres do Octávio Machado. Nos últimos anos tinha-se esquecido de nós e só falava sobre o Porto.

domingo, 13 de maio de 2018

“Without lap, there is no tactics' king of portuguese football”, como diria o Carvalhal

Após a vitória do Tondela na Luz, começou a conversa de que o zero a zero em Alvalade contra o Benfica chegava. O discurso do Jorge Jesus não deixava dúvidas: tínhamos mais medo de perder do que vontade de ganhar. Essa estratégia foi executada com o rigor possível de quem joga para não perder, sabendo-se, como se sabe, que quem joga assim está mais próximo de perder e mais longe de ganhar. Empatámos, mas o empate só serviria se fosse seguido por uma vitória no Marítimo.

Pelos vistos, tínhamos medo de perder, jogámos para não perder, não perdemos, empatámos, mas não sabíamos o que fazer a seguir quando se pedia a vitória. Pedia-se, hoje, a vitória. Esperava-se a reedição dos jogos contra o Porto e contra o Atlético de Madrid para, respetivamente a Taça de Portugal e a Taça UEFA, quando nenhum outro resultado que não a vitória servia. Só que esses jogos foram o engano da época. Não sabemos jogar para ganhar como nunca soubemos durante a época toda. Como de costume, esperávamos ganhar nos descontos, com o Rui Patrício a safar-nos nas situações mais aflitivas, mas a sorte não dura sempre: perdemos nos descontos com o Rui Patrício a enterrar-nos.

Repetiram-se todos os erros. Erramos e cada jogo que passa erramos melhor. Entrámos com a equipa presa por arames. Os dois laterais não apoiam o ataque e, mesmo assim, são os dois primeiros jogadores a arrebentar. O caso do Piccini é que não se compreende, definitivamente. O jogador mal se conseguia mexer. O Ristovski cumpriu sempre que entrou, especialmente a dar profundidade no flanco. Assim, o Gelson Martins foi deixado à sua sorte no lado direito, sem qualquer apoio no ataque e com a necessidade de apoiar a defender, não tendo praticamente tocado na bola na segunda parte em condições de desequilibrar.

Do lado direito estávamos conversados, mas do lado esquerdo não estávamos melhor. Jogámos com os estafados Coentrão e Acuña e quando quisemos mudar tínhamos esse poço de energia e de velocidade que é o Bryan Ruiz. O que diria o Jorge Jesus do Iuri Medeiros, ou de qualquer um dos seus outros pequenos ódios de estimação, se marcasse um livre perigoso a nosso favor diretamente pela linha de fundo? No meio, viveu-se a confusão do costume sempre que jogam o William Carvalho e o Battaglia. Quando joga sozinho, o Battaglia sai a todos e vai a todas, limpando tudo até onde a vista alcança o horizonte. Quando joga com o William Carvalho, elabora-se em cima do joelho um Tratado de Tordesilhas qualquer sem que fique claro quem faz o quê, atrapalhando-se ambos.

O jogo de ataque ficou entregue ao Bas Dost e ao Bruno Fernandes. O Jorge Jesus tem-nos transformado numa equipa de comandos ou de outro tipo de tropas especiais a quem se entrega um “kit” do Rambo e se coloca atrás da linha do inimigo, esperando que ganhe a guerra sozinho. O Bas Dost está mesmo condenado a disputar sempre a bola na área contra três ou quatro adversários sem que tenha qualquer colega por perto. Mesmo ajudada pelo Gelson Martins, uma equipa de comandos como esta pode arranjar umas escaramuças, pode desestabilizar o inimigo, pode ajudar a ganhar uma ou outra batalha, mas não ganha sozinha a guerra. Nessas circunstâncias só o Rambo e não tenho a certeza que o possa fazer no campeonato português como a mesma facilidade com que o fez no Vietname ou no Afeganistão.

Com exceção dos dois golos, que foram mais obra do acaso do que outra coisa, os primeiros setenta a setenta a cinco minutos constituíram simples prelúdio para a ponta final, onde é necessário “put all meat in the barbecue”, como diria o Carvalhal. Começámos com um ponta-de-lança para acabarmos com três. Eram tantos que nem sobrou espaço na área para lá se meter o Coates também, o autor das vitórias épicas nos últimos minutos. Não subiu para a área e mesmo assim ele e o William Carvalho não foram suficientes para travar um avançado do Marítimo que ao querer ver-se livre da bola acertou-lhe nas orelhas e permitiu ao Rui Patrício o único frango desta época.

Definitivamente, ficou demonstrado que, sem colinho, o Jorge Jesus não passa de mais um cromo, embora o cromo mais caro do futebol português. Cinco anos depois com milhões e milhões euros gastos em camiões e camiões de jogadores e no treinador mais caro de sempre continuamos na casa de partida, isto é, em terceiro lugar e mais próximos do quarto do que do primeiro lugar. Este treinador e estes jogadores são os outros, aqueles que não são do Presidente, que, assim, não tem responsabilidade nenhuma. Continua a fazer aquilo em que é melhor: falar de si próprio, deixando ao “Facebook” e ao seu pai a responsabilidade de resolver aquilo que a ele e só a ele lhe compete.

(Há razões para ter esperança. Na final da Taça de Portugal, contra o Aves, há sempre a possibilidade se ganhar por “penalties”, situação de jogo muito treinada pelo Jorge Jesus e que muitos resultados positivos nos tem proporcionado)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Fuga da vitória


Esta semana tem sido muito interessante de seguir. O nosso rival, Benfica, queixa-se de várias coisas. Queixa-se de não poder ganhar a taça de Portugal. Queixa-se de não ter ganho a (sua) taça da liga (para eles taça Lucílio Baptista). Queixa-se de não ganhar o campeonato. Queixa-se por ter de jogar o último jogo sem saber se o carcanhol da liga dos milhões vai chegar à sua conta. Queixa-se (baixinho) de não ter ganho um jogo sequer (nem empatado) na liga dos milhões deste ano. Queixa-se de conduta violenta de elementos ligados ao Sporting, entre eles o (violento) roupeiro Paulinho, num jogo em que se queixa de não ter ganho. Esse jogo foi contra o Sporting, a quem o benfica acusa de vestir de verde e...branco. 

Entretanto, a imprensa desportiva vai vendendo todos os jogadores do Sporting. Já ficamos sem equipa B, agora corremos o risco de ficar sem equipa A. Patrício? Vendido. Ou quase. Quer sair. Mal com o presidente. William? Vendido, quer dizer, quase, quer sair. Mal com o presidente. Bas Dost? Quase vendido, quase que quer sair. Quase de mal com o presidente. Fernandes? Quase vendido. Gélson? Quase vendido, para o ano é que vai ser. Doumbia? Em fuga, quase vendido. Coates? Vendido ou quase, não tarda. Piccini? Tem pretendentes a dar com um pau. Quase vendido. Coentrão? Andou à porrada com vários elementos alegadamente ligados à estrutura de uma equipa que jogou recentemente com o Sporting. Depois andou quase à porrada com o (nosso) presidente. Isto tudo durante o jogo e ninguém viu nada. Quase devolvido. Bryan Ruiz? Quer ficar. Já se pensou algemar a um daqueles lindos postes verdes no exterior do estádio. Quase que fica, vão ver. Ideiafix JJ? Fica. A sério? Sério. E o chuta chuta também. É meia equipa.