quarta-feira, 29 de junho de 2016

Laissez-faire

Já tinha partilhado anteriormente que a minha esotérica explicação para o golo de Portugal contra a Croácia assenta na teoria da mão invisível de Adam Smith, por ser um daqueles casos em que três jogadores, agindo no seu puro interesse individual acabaram por fazer o que era melhor para o coletivo.

Nani não estava numa boa posição para rematar, no entanto o que ele queria mesmo era marcar um golo. Como tal em vez de centrar mandou uma biqueirada na bola que foi parar redondinha aos pés do Ronaldo.
Este já sabemos, também age sempre no seu próprio interesse: apesar da melhor posição de Quaresma, Ronaldo não quer um lugar na história como rei das assistências e rematou à baliza. Perante a intervenção da mão bem visível do GR Croata a bola lá foi, não para o fundo das redes mas para a cabeça dum Quaresma que... simplesmente não devia estar ali.
Sendo o extremo de serviço Quaresma depois de recuperar a bola junto à linha devia ter-se mantido por lá, a dar "profundidade" ao ataque e nunca se deveria enfiar no meio dos colegas. Acontece que Quaresma queria mesmo era marcar, e disciplina táctica não é com ele; uma mão invisível empurrou-o para o lugar do ponta de lança que Santos teima em não usar.
Resultado final: uma batata lá dentro, exactamente o que era melhor para o colectivo.

Não sei se o caso é replicável. O que sei é que o Fernando Santos tem vindo a conseguir o feito notável de ter todos os seus jogadores com um desempenho no Euro abaixo do que eles conseguem nos seus clubes. Será que quando assim é podemos concluir que seria mais eficiente o Fernando Santos não fazer nada? Não sei, mas eu arriscava ver o resultado e por isso o meu desejo para amanhã é que o Fernando Santos adopte um modelo laissez-faire, que em futebol se deve traduzir num "deixa mas é os homens jogar à bola".

domingo, 26 de junho de 2016

O autocarro

Se o jogo fosse para o campeonato nacional, diríamos que a Selecção estacionou um autocarro à frente da baliza. Foi um autocarro com vários andares ou camadas, tal era a vontade de condicionar o jogo da Croácia em todos os momentos e em todos os locais do campo.

O Adrien entrou para condicionar o Modric e empurrar o jogo da Croácia para as laterais, onde se verificava um completo congestionamento face à concentração de jogadores da Selecção, que defendiam com dois laterais de cada lado. A bola não podia entrar pelo meio e, para além do Adrien andar atrás do Modric, o William Carvalho tinha a função de não deixar o Rakitic tocar na bola. Os laterais só tinham como função defender o melhor que podiam e sabiam. O João Mário e o André Gomes tinham de fechar as laterais. O Nani e o Ronaldo ficavam para uma bola que lhes chegasse aos trambolhões, tendo-se deslocado o Nani para fechar um das laterais numa fase mais adiantada do jogo. O Pepe e o Fonte eram os feios, porcos e maus, que tinham que arreganhar os dentes a qualquer avançado que pretendesse disputar uma bola na área. O Patrício ficava para os pontapés de baliza e para fazer outros chutões para frente quando lhe atrasassem a bola.

Não se pode analisar o desempenho dos jogadores sem se compreender o que lhes foi pedido. Foi-lhes pedido que condicionassem o jogo da Croácia e eliminassem os seus principais jogadores. As substituições de forma directa ou indirecta também foram determinadas por esse objectivo. Foi o que os jogadores fizeram. Não sou capaz de destacar nenhum. Todos fizeram bem o que lhes foi pedido.

O golo da Selecção nasce de um roubo de bola do Quaresma e de um excelente passe do Ronaldo para o Sanches. A partir daí, uma série de equívocos e disparates permitiu uma combinação có(s)mica que fez a bola entrar. O Sanches arranca com a bola cheio de força e velocidade e com a cabeça plena de hesitações. À conta de tanto hesitar, em vez de passar a bola em dado momento acaba por a levar até aos pés do Nani, que já estava parado e sem espaço para fazer nada. O Nani enfia uma biqueirada na bola para se ver livre dela. A bola ganha vida própria e vai ter com o Ronaldo que, em vez de a passar ao Quaresma, remata para boa defesa do guarda-redes. A bola volta a ganhar vida própria e vai ter com o Quaresma para a empurrar de cabeça para a baliza.

Tentar a partir deste lance e do resultado analisar os jogadores e a nossa Selecção é um disparate. Este lance revela, apesar de tudo, a crença dos nossos jogadores. O Sanches, o Nani, o Quaresma e o Ronaldo acreditaram que aquele podia ser o momento do jogo que tanto esperavam. De outra forma, quase aos 120 minutos, ninguém está disponível para semelhantes correrias.

Aparentemente, o Fernando Santos jogou com a sorte e ganhou. Um jogo empatado pode cair sempre para um dos lados. Pode ser através de uma trapalhada, como no nosso golo, ou através dos penalties. Admitindo que se continua a jogar para ao empate, condicionando exclusivamente o jogo do adversário, as probabilidades de se ganhar o Europeu são reduzidas. As probabilidades não são 50% para cada lado em cada jogo. Quem joga mais próximo da baliza do adversário tem mais probabilidades de ter sorte. A não ser que não se trate de uma questão de sorte mas de uma questão de fé. É que a fé também move montanhas.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Exactamente aquilo que se esperava

Como Sportinguista estou sempre pronto para que as coisas acabem por ser piores do que alguma vez se esperava. Pelo que vejo escrito neste blogue e nas caixas de comentários talvez não seja o único. Mas desta vez estava claramente enganado: o desempenho da selecção não está a ser pior do que se esperava, mas sim exactamente o que se esperava.

Comecemos pela parte mais subjetiva: as exibições. Como qualquer equipa de Fernando Santos os jogadores sofrem em campo. A todo o grande plano vemos olhares desesperados de quem não sabe muito bem o que está ali a fazer. A cada conversa entre jogadores percebemos que também nenhum sabe bem o que os outros andam ali a fazer. O resultado é um jogo conservador, individualista e sonolento. Não há surpresas neste campo.

Passemos então aos resultados. A UEFA inventou um esquema em que 2/3 dos terceiros lugares de grupos de 4 equipas passam à fase seguinte. Em futebol qualquer esquema que meta contas complicadas só pode ser feito à nossa medida, mesmo que o grupo seja o mais fácil possível. Foi isso mesmo que aconteceu.

Tentemos então perceber como nos qualificámos. Já todos sabíamos que o que faríamos no Euro dependia essencialmente de uma pessoa: Cristiano Ronaldo. Então como nos qualificámos? Se a resposta do leitor for "Cristiano Ronaldo" acertou, pois claro. No surprises.

Fernando Santos parece ter uma enorme qualidade: sorte. Muita sorte. Também aqui não houve surpresas. O emparelhamento que nos calhou para a fase do 'mata-mata' sugere que não chegar à final seria um falhanço quase tão grande como ficarmos no grupo atrás da Islândia e da Hungria. Ainda assim, sendo do Sporting, estou preparado para que as coisas corram muito pior do que se espera. Infelizmente acho que desta vez não me vou enganar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Ronaldo tirou-nos do buraco

A tática é a do 4x4x2, diz o Fernando Santos. Se ele o diz é porque deve ser. O que todos nós vimos contra a Hungria foi uma enorme trapalhada, com equívocos atrás de equívocos. Aliás, a trapalhada é tal que me custa criticar alguns jogadores. Muitos deles, mesmo não sendo brilhantes, estão a jogar pior do que sabem e podem. A defesa está sempre em permanente sobressalto. O meio-campo não anda nem trava ninguém. O ataque é o que sobra disto tudo e que o Nani e, especialmente, o Ronaldo vão aproveitando como podem.

O maior de todos os equívocos é o do Moutinho. Não defende, não ataca, não chega à frente, passa para o lado e para trás, isto é, não anda nem deixa andar. Mas o pior, o que releva a completa falta de noção do treinador, é continuar a vê-lo marcar cantos e livres. Irrita qualquer um. O Ronaldo às páginas tantas marcou um de forma rápida só para evitar o balão do costume para a molhada, antecedido de um olhar profundo como o de quem precisa de pensar antes de fazer e faz sempre o que pensa.

O Eliseu é mau. Todos sabíamos e, portanto, não é novidade. Dos outros tenho mais dúvidas. O André Gomes também faz que anda mas não anda. Porventura, anda na posição errada. Mas se é para andar onde anda é melhor arranjar outro que ande melhor. Este jogo era o pior para lançar o Renato Sanches. Jogo difícil, carregado de responsabilidades. Bastava falhar uma vez para se começar a enterrar. Só o vi jogar uma vez. Não tenho nenhuma opinião, nem boa, nem má. Não esteve bem, mas não foi só ele. Fez uma excelente jogada que acabou numa confusão entre o Ronaldo e o João Mário. Se a alternativa é entre ele e o Moutinho, então que jogue ele.

De repente, o Fernando Santos teve uma epifania. Ao meter o Quaresma fez deslocar o João Mário mais para o meio. O João Mário fez uma má primeira parte, mas, na segunda, até conseguiu que a equipa tivesse alguma organização. Rapidamente o Fernando Santos voltou à (a)normalidade, ao meter o Danilo e a exilá-lo novamente na ponta esquerda. Nunca mais se viu organização nenhuma.

Sem o Ronaldo tínhamos ficado por aqui. Metemo-nos dentro de um buraco três vez. Três vezes o Ronaldo nos foi de lá tirar. Primeiro, com um passe impressionante para desmarcação e remate impecável do Nani (também ajudou alguma coisa o guarda-redes adversário sofrer de ciática e de bicos de papagaio). Depois, com um golo de calcanhar, na melhor jogada do jogo, que fica para os youtube. Por fim, com uma cabeceamento que deverá passar a constar dos compêndios (também ajudou o centro tenso do Quaresmas; imagem se fosse o Moutinho centrar?!).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A Culpa é do Ronaldo

“A Culpa é do Ronaldo” é um programa da RTP1. Vi este fim-de-semana um pouco. Não pretendo ver muito mais. Seja como for, não é pior do que os intermináveis programas com os comentadores do costume (ia dizer do regime). Dizem-se coisas mais acertadas do que nesses programas sem que as pessoas que nele participam digam o acostumado chorrilho de banalidades com ar sério e levando-se a sério. Nos tempos que correm, uma bênção portanto.

O título é excelente. Sintetiza tudo o que se possa dizer sobre a nossa Seleção. O futebol são golos. Ganha-se com golos. Não se esperam golos de quem não os marca. O Nani marcou um e, de acordo com a sua média, não marcará mais nenhum. O Quaresma só marca golos extraordinários. Contra a Estónia esgotou-os. É estatisticamente inverosímil que os volte a marcar tão cedo. O Éder ou não marca golos ou só marca golos em jogos a brincar e, em média, um por cada vinte jogos. Dos outros não se espera golo nenhum. Ninguém em seu juízo perfeito tem muita fé nos golos que o João Mário, o André Gomes, o João Moutinho, o Renato Sanches, o William Carvalho ou o Rafa vão marcar. Se no campeonato com equipas da treta vêm-se e desejam-se para os marcar, não se vê como o possam fazer em jogos a sério contra equipas a sério.

Tudo se resume ao Ronaldo. Se o Ronaldo marcar, a Seleção pode ganhar jogos e ir longe na competição. Se não marcar, não há nada a fazer. Vimos mais cedo para casa. Se viermos mais cedo para casa, “a culpa é do Ronaldo”. Não é por ser o melhor do mundo ou se considerar o melhor do mundo e não passar cavaco (e a bola, de quando em vez) aos colegas. É porque as coisas são como são.

domingo, 19 de junho de 2016

A grande ilusão

Tenho evitado escrever sobre a selecção dos possíveis seleccionáveis da equipa de futebol sénior que representa Portugal no Europeu de França. Não é fácil, atendendo às inúmeras possibilidades que o tema coloca ao dispor do nosso divertimento. Nem vale a pena assinalar o folclore forçado que assinala a partida para uma nova competição, envolto num unanimismo colado com muita saliva e à força de muito engraxamento de chuteiras. Basta olhar de fora com discernimento para perceber que tudo não passa de uma ilusão à Luís de Matos cujas vozes ficam por conta do Fernando Pereira.

Quanto ao resto, e em abono da verdade, não é fácil ganhar à selecção portuguesa, da mesma forma que não é fácil perder com a selecção portuguesa. Basta alguma organização, concentração e pernas para que vos quero, para conseguir enervar os jogadores e desmontar a estratégia portuguesa baseada no vamos assustá-los com o Ronaldo e ameaçá-los com o ai vai ele Sanches não tarda a entrar e aí é que vão ser elas.

Quando começam os jogos a bola não bate certo com a programação futeboleira televisiva nem com as elaborações dos comentadores a soldo das agências de propaganda, nem sequer com qualquer ideia que tenha hipoteticamente germinado na cabeça do Fernando Santos. Apenas as camisolas são da mesma cor, tudo o resto é feito por encomenda ou ao sabor do momento. Na dúvida passa-se ao Cristiano. O Cristiano na dúvida passa a si próprio e anda por ali a estragar talento.

Ainda ontem (dia de jogo, note-se) um dos jornais desportivos cá do burgo fazia capa com o Sr. Mendes a aconchegar o menino Cristiano, o que é bem demonstrativo da importância do senhor na causa de todos nós, e igualmente bem demonstrativo da insignificância da bola a correr à flor da relva, como diria o Gabriel Alves. No meio disto tudo faz-se uma selecção do seleccionador que (supostamente) deve seleccionar os seleccionáveis devidamente assinalados por quem de direito. Os donos disto tudo vão marcando as tendências da moda. Quem somos nós para os contestar.

Ontem podíamos (e devíamos) ter ganho. Agora vamos ganhar à Hungria no limite do fora-de-jogo. Depois que venham as grandes selecções, aquelas que atacam e nos deixam espaços, de preferência, claro, a Inglaterra. Até os comemos, vão ver.

Nota: Grande vitória, em futsal (sem espinhas), sobre um Benfica trauliteiro quanto baste. Mais um campeonato, num grande exemplo de dedicação e glória. 


O Mendes pensa, o Santos sorna e a obra tarda a nascer

Mesmo com o tão discutido 4x4x2 havia uma série de supranumerários do meio-campo na convocatória e faltavam avançados. Hoje somos surpreendidos, ou talvez não, com a presença na equipa titular do Ronaldo, do Nani e do Quaresma. A lista dos supranumerários parece que vai engrossar. A gestão dos egos e dos estatutos assim o obriga.

Jogámos melhor mesmo assim. Com o William Carvalho, o meio-campo passou a jogar à bola. Não há nada melhor do que alguém naquela posição que saiba receber a bola, passá-la, sem ser sistematicamente para o lado e para trás, e mexer-se para assegurar linhas de passe para os colegas. A essa melhoria com bola somou-se uma melhoria também na pressão sobre os adversários e, sobretudo, na defesa, com duas grandes exibições do Ricardo Carvalho e do Raphael Guerreiro, tendo o Pepe melhorado relativamente ao jogo anterior.

No ataque continua tudo na mesma. Não há fogo nas botas. Fica-se sempre à espera que o Ronaldo decida tudo. É verdade que o Ronaldo decidiu que decide tudo. Mas também é verdade que os outros só dispõem de tiros de pólvora seca. Ninguém, no seu juízo perfeito, acredita que a Selecção possa chegar longe com golos do Moutinho, do André Gomes, do João Mário, do Quaresma, do Éder ou, mesmo, do Nani (marcou um e, de acordo com a média, neste europeu a coisa deve ficar por aqui).

Dois jogos, dois empates, no grupo mais fácil deste campeonato, de um dos candidatos ao título (segundo o Santos). Voltamos a fazer contas. Desta vez são mais complexas. Se a UEFA expulsar a Rússia, a Inglaterra, a Croácia e a Hungria por mau comportamento dos adeptos, até o empate pode chegar no último jogo. Estou com grandes esperanças nesta combinação có(s)mica.

Enfim, o Mendes pensa, o Santos sorna e, bem, a obra não há maneira de nascer. Nem sequer se sabe se é exactamente assim. Fica-se na dúvida. Não se sabe se esta é a obra ou ainda vai aparecer a verdadeira. Às tantas, como sempre, as coisas são o que parecem.

terça-feira, 14 de junho de 2016

O sono comanda a vida

Não aconteceu nada que não esperássemos. Empatámos com uma espécie de Haiti do Campeonato Europeu. Um conjunto de pescadores reuniu-se e constituiu uma equipa. A Selecção foi escolhida por catálogo sem se perceber a equipa que daí iria emergir, embrulhando-se este “pim-pam-pum” numa conversa manhosa sobre um hipotético 4x4x2 que melhor partido tiraria das qualidades dos nossos jogadores.

Não há nada como os consensos antes dos jogos. Definitivamente o Danilo era melhor, muito melhor do que o William Carvalho. Dizia-se que com ele não passava nada, que de cabeça era tudo dele. Não foi inútil. Foi pior. Foi contraproducente. O homem não é um trinco. O homem é um tronco. Parado à frente dos centrais, invariavelmente lhes cortava as linhas de passe para as laterais ou, em progressão, obrigava-os a contorná-lo.

Com o golo da Islândia, entrámos em modo de desespero. Como previa, o Plano B é o do entra o “Renato aí vai ele Sanches”. Esgotado esse efeito em pouco tempo, passou-se à fase do “é melhor meter o Quaresma, pode ser que saque uma trivela” (não percebo nada disto, mas bem me parecia que a decisão de o não substituir no jogo contra a Estónia ainda ia acabar mal, dado que o rapaz não vai para novo). Para se concluir, à boa maneira de um treinador português, mete-se um ponta-de-lança para se cumprir a táctica celebrada pelo Cajuda de “meter a carne toda no assador”. Mas é preciso meter a carne. Meter os ossos não chega.

O Fernando Santos é um António Gedeão às avessas. Com ele, o sono comanda a vida. Às vezes adormece-se o adversário para o apanhar a dormir. Outras vezes, adormecemo-nos e somos apanhados a dormir.

Prognósticos antes do jogo

O Campeonato Europeu está transformado na Copa América, com inconveniente de não podermos ouvir os comentários do Dani sobre o perfume do futebol do Haiti ou da Jamaica. É apurado um sem-número de equipas para a fase final. As probabilidades de a Selecção Nacional ficar na fase de grupo são reduzidas. Sendo assim, não se vai sair mal. Também não se vai sair bem. Como de costume, vai-se sair assim-assim e no final o Ronaldo decide se fica este treinador ou se se arranja outro.

Antes de começar a bola a rolar, as expectativas sobem. Vou ouvindo aqui e ali as análises que se vão fazendo. É tudo consensual. A convocatória parece o resultado de uma votação de um qualquer “reality show”. O Fernando Santos escolheu aqueles em que os portugueses votariam se lhes dessem oportunidade para tal. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro abençoaram-nos e, não fosse a laicidade do Estado, até o Cardeal Patriarca faria o mesmo. Em Portugal, não há margem para a dissidência. É a história da vidinha, que cada um tem de ganhar a sua.

Teria preferido uma escolha em função de um modelo de jogo e de alternativas. Temos uma série de jogadores repetidos para o meio-campo. Em contrapartida, não temos jogadores para o ataque e os que temos sofrem de gota e de outras maleitas que a idade se vai encarregando de arranjar, para além de não aguentarem um jogo todo a não ser a arrastar-se na fase final. Face a essas dificuldades, o potencialmente imprevisto passa a previsível.

O Quaresma lesionou-se. Nada de anormal. Joga o Nani. Se se lesiona o Nani ou se arrebenta, como de costume, após meia dúzia de corridas, não se sabe quem entra. O Éder não conta ou pelo menos não conta para o tal 4x4x2 sobre o qual anda toda a gente a falar mas sem ninguém perceber muito bem de que modelo de jogo se trata (o Sporting também joga em 4x4x2 e não me parece que seja a mesma coisa). O Rafa é um supranumerário. Não sendo carne nem peixe, é uma alternativa a si próprio.

 A Selecção devia ter mais um avançado, mais novo de preferência. Para entrar, substituindo uma das nossas velhas glórias ou para mexer com o jogo se fosse necessário. Para isso ou ia menos um dos jogadores de meio-campo repetidos ou ia menos uma central, sendo muito provável que nenhum deles aguente a competição até ao fim, contando-se com o Danilo para essa posição também. Pelos vistos, o Plano B para todas as situações é o Renato Sanches, seja para jogar em que posição for. Se resultou no Benfica também resulta na Selecção, deve ser o raciocínio dos comentadores que vou ouvindo e o que está na cabeça do Fernando Santos.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Voltar a dar ao gatilho

Há muito que não dava ao gatilho. Estava com saudades, confesso. Não havendo jogos do Sporting a motivação não é muita. Um jogo da Selecção ou da Copa América não é mesma coisa. Hoje, a muito custo, decidi ver o jogo da Selecção.

Não sei se no Campeonato da Europa também vamos jogar com a Estónia. Se assim for, então está tudo bem. Se assim não for, tenho mais dúvidas. É que todos os jogadores de Selecção pareciam bons. Até o Éder.

O jogo foi o Quaresma. Quaresma marca, Quaresma assiste, Quaresma finta, Quaresma centra, Quaresma de trivela, Quaresma de letra. Apesar de tudo e por muito que me custe tenho de valorizar o Fernando Santos. O Paulo Bento não o convocava porque nem sempre fazia o que lhe pediam, é imprevisível (ou maluco da cabeça, como se quiser), tinha a mania de querer resolver os jogos ou colocava em causa as primas-donas. Nunca se lembrou de analisar as suas qualidades futebolísticas e tão-só.

Finalmente consegui perceber a utilidade do Pedro Abrunhosa como compositor musical. A música e especialmente as suas letras dão uns hinos bestiais para a bola.

domingo, 5 de junho de 2016

O estado da corporação

O ABC ganhou o campeonato de Andebol. Parabéns ao ABC. No entanto, cheira-me que alguns dos seus adeptos ficariam satisfeitos fosse qual fosse o desfecho da final. Para a história fica o adiamento deste último jogo por suposto não envio de bilhetes para o Benfica. Ora esse (suposto) não envio de bilhetes já havia acontecido nas meias-finais com o Sporting sem direito a qualquer adiamento por linhas tortas (isto para não falarmos dos casos de arbitragem).

Se quisermos fazer a ponte para um jogo com patins e sticks verificamos que a polémica da cedência de bilhetes só teve eco quando foi o Sporting a (tentar) fazê-lo, como resposta, aliás, a uma acção anterior do Benfica, que se havia recusado a enviar bilhetes para Alvalade, passada completamente despercebida.

Esta semana ficamos a saber que a acção judicial imposta pelo Benfica a Jorge Jesus não passa de uma charada para entreter adeptos mais incautos. Grande parte da (eventual) prova foi sendo sacudida de notícias de jornais e de conversas de especialistas de café. Note-se que o resultado foi o pretendido: criar ruído suficiente para esconder a surpresa (?) pela saída do treinador para o Sporting, treinador esse, que tinha os dias contado na Luz, com via de marcha para o Dubai, ou coisa parecida. Resultando ainda na intoxicação da opinião pública, benfiquista e não só, coadjuvada por uma série de acções, judiciais e circenses, contra o Sporting.

Como é que tudo isto foi possível? Alguns asseguram a existência de um estado lampiânico. Creio que a resposta é mais simples, estando alicerçada na velha tradição corporativista portuguesa, tradição essa, que já teve, inclusive, estatuto legal em sede de código civil, por exemplo, durante o Estado Novo. Essa grande corporação que vem sendo urdida desde o tempo da velha senhora, foi ganhando novo élan durante a batalha da fruta cujo apito pariu um rato. Aparentemente apenas um rato, mas com consequências que se estendem até aos dias de hoje. Não é por acaso que o dragão anda com catarro, cuspindo fogo por outros locais que não o habitual.

Feito o caminho, as mãozinhas (tentáculos é só em Itália) chegam a todo o lado: jornais, televisão, quiosques, feiras do porco preto, e algumas juntas de freguesia, passando pela sede da FPF e da liga dos últimos. No meio disto tudo, vão passando despercebidos alguns pormenores, vouchers, passivo, falências técnicas. Está tudo bem: o aí vai ele Sanches fez mais uma exibição de encher o olho na selecção (o jornal a bola até considera mudar o seu nome para A Bola do Sanches) assegurando-nos mais uma vitória moral e, finalmente, o Slimani foi castigado, após ter sido vendido umas vinte vezes na última semana.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O paciente Inglês

Dizem os nossos especialistas no after-match que ontem foi um não teste. O jogo correu mal para todos e não se pode concluir nada. Discordo em absoluto. Para uma equipa que joga com Pepes, Brunos Alves e outros ontem foi um excelente teste: é altamente provável que aquele "cenário" se repita.

Assim sendo o teste correu mal. A ideia de jogar com metade dos atacantes fora da sua posição foi um desastre. A ideia de por um médio a central deu no golo da Inglaterra. Não percebo muito disto mas se convocamos um jogador porque passa um ano a jogar bem a médio não seria de depois por o rapaz a jogar a médio? Ou convocam-se médios só porque logo por azar os nossos amigos só têm médios no portfolio?

Dito isto tiro duas notas que acho objetivas:
- Com o Ronaldo tudo é possível; sem ele, nada feito.
- Os Ingleses não jogaram muito, mas foram pacientes e premiados pela paciência. Não costuma(va) ser assim.